Liderada por uma mulher, a Termolar, uma das mais tradicionais empresas de Porto Alegre, com 67 anos de história e presente em 25 países, acaba de lançar uma nova campanha, no mês de setembro, apostando na quebra de estereótipos. Afinal, quem disse que gaúcho que toma mate em cuia de inox é "menos gaúcho"?
A intenção é oferecer uma leitura atual do gauchismo, feito de gente que preserva tradições, mas que também está aberta a novas ideias, hábitos e formas de viver. Assinada pela agência Amanita, a campanha traz frases como “gaúcho que é gaúcho também come xis vegano”, “gaúcho que é gaúcho também toma café gourmet” e gaúcha que é gaúcha joga bola, assa carne, corre maratona...
É esse o tom da ação, que tem em Natalie Ardrizzo sua voz de liderança, uma voz feminina e jovem.
Conheci a executiva na última semana, em um bate-papo na sede da empresa, uma das poucas remanescentes na área urbana da Capital, no bairro Cristal.
Filha de um dos fundadores, o uruguaio Jorge Carlos Ardrizzo (1929-2016), ela começou na área financeira da companhia em 2015. Dez meses depois, perdeu o pai (falecido aos 86 anos) e teve de aprender a se virar sozinha, ao lado dos irmãos. Em 2021, com apenas 34 anos, tornou-se presidente da empresa, passando a comandar quase 700 pessoas e 90 representantes país afora.
Desde então, Nathalie tem participação direta nas inovações da marca, entre elas o lançamento de uma cuia inox em diferentes cores (inclusive rosa) e a reformulação da tradicional térmica Chimarrita com o desenho de uma mulher sobre o cavalo, galopando a rédeas curtas.
— Como é que a gente pega itens que são tão tradicionais e transforma em algo novo, sem perder a essência? Entendi que era preciso ressignificar nossos produtos, até para ficarmos relevantes para as novas gerações. Foi um processo de apropriação mesmo, porque meu pai nunca deixaria eu criar uma cuia de inox, ainda mais cor de rosa — brinca Natalie.
A seguir, confira os principais trechos da entrevista.
Por que quebrar estereótipos?
Porque é um pouco do que a gente acredita aqui dentro. Valorizamos a tradição, mas também estamos abertos à inovação. E eu acredito muito que não tem coisa mais bonita na vida do que a gente ser quem a gente é e bancar isso. Não tem paz interna maior. É um pouco isso o que a gente quis trazer com essa campanha. Por isso a gente diz que gaúcho que é gaúcho toma mate na cuia de inox, e muito mais.
E o público tradicionalista, como encara essas mudanças?
Há algum tempo, no meu perfil do Instagram, uma pessoa reclamou da cuida de inox. Falou que era um absurdo. Eu respondi para ele algo que eu sempre respondo. Disse que entendo esse posicionamento. Está tudo bem, ninguém é obrigado a comprar. A gente continua com a mesma garrafa térmica do ano 2000, sem nenhum tipo de desenho. Tu podes comprar esta. Só que eu tenho de ser pioneira. Estou no meu papel, de uma marca pioneira, atendendo a públicos diferentes.
E tu és uma gaúcha que usa cuia de inox?
Sim, até porque ela é mais higiênica. As cuias tradicionais têm mais chance de mofar por causa das diferenças bruscas de temperaturas, que se aceleraram nos últimos anos. Antes, isso não era tão drástico. E o inox não mofa. Tem facilidades e vantagens.
E versão feminina da Chimarrita?
Essa história também é muito legal. A gente queria uma garrafa voltada às mulheres. Daí fizeram uma que acabamos apelidando de Fiona (personagem do filme Shrek), com uma mulher de vestido de prenda. Aí eu falei, gente, por que essa mulher estática, parada? Põe essa mulher para fazer alguma coisa. Ela não precisa estar igual ao ginete (empinando o cavalo, outra estampa muito conhecida da garrafa), mas vamos colocá-la do jeito dela.
E como ficou?
Agora, ela está toda bonita, andando a cavalo, num movimento de potência, puxando a rédea. Está ali, plena, usando as habilidades dela, mas não está fazendo a mesma coisa que o homem. Ela não está lá empinando o cavalo, mas também não está mais passiva, entende? Acho que isso é o legal. Não precisa masculinizar, não é sobre isso.
Tu és feminista?
Me perguntam isso às vezes nos fóruns. Eu não me conecto muito com a realidade desse feminismo tão ferino contra homens. Eu sou uma mulher forte, isso, sim.
Se teu pai pudesse ver hoje as inovações na empresa, o que ele acharia?
Eu fico tentando imaginar a cena. Seria óbvio te dizer que ele teria orgulho, e, sim, essa seria a minha leitura básica. Mas eu às vezes fico pensando que talvez ele me desse uma bronca por fazer coisas tão diferentes daquilo que ele gostaria. Ao mesmo tempo ele, estaria orgulhoso, sim, de ver que eu pude decidir por mim.
Tu te emociona falando disso, né?
Sim, claro. A gente inclusive fez uma homenagem para o meu pai. Tínhamos uma Revolution (garrafa térmica de inox) com um gaúcho estampado. Criamos uma nova versão, colocando ele lá, como um personagem. É o legado dele.


