
Canta, Gil, canta. A fé não costuma falhar, nem o verdadeiro amor, aquele que se estende ao infinito, imenso monolito. Gilberto vem aí, e Porto Alegre vai recebê-lo neste sábado, no estádio Beira-Rio, com um abraço apertado, do tamanho de sua poesia e grandeza.
Baiano de todos os santos, Gil apresenta a turnê Tempo Rei, sua despedida dos grandes palcos, aos 83 anos de uma vida bem vivida. Ele deixa uma contribuição imensa para a MPB e para aquela argamassa disforme e porosa que chamamos de “identidade brasileira”.
Desde março, foram 14 shows, seis cidades, meio milhão de espectadores, arenas lotadas. É incrível perceber como, depois de tanto tempo, Gil continua sendo um fenômeno.
O mais emocionante dos encontros foi no Rio de Janeiro, em abril deste ano, com a presença de Preta, filha do cantor e compositor, em seus derradeiros dias. Juntos, eles cantaram a canção que talvez seja a mais bela já criada neste chão: Drão, escrita por Gilberto em 1981.
A música selou o fim de seu relacionamento de duas décadas com Sandra Gadelha (apelidada de Drão por Maria Bethânia), mãe de Preta.
Dolorida e delicada, a letra é um manifesto de afeto, compaixão e respeito. É a crença sincera de que o fim também pode ser um (re)começo. Drão, no fundo, é a celebração de um grande amor que não morre. Transforma-se. Tudo muda, afinal. A vida é um rio.
Gil chorou ao entoar os versos com a filha e emocionou o Brasil. Quem não se viu ali, sentindo a dor daquele pai?
Preta partiu três meses depois. Não cantará mais com ele. A turnê parou, e o artista recolheu-se dos palcos. Era preciso.
O luto, diz Gil, tem três etapas: a primeira é a do sofrimento extremo, do choro e da tristeza profunda; a segunda, é de silêncio e resignação. E a terceira? Bem, a terceira, segundo Gilberto, “é o cantar”. A tristeza vira arte. Vira música. Vira saudade.
Gil voltou e recomeça o rito de despedida por Porto Alegre. Que bom, que privilégio.
Agora, ele canta por ela, para ela e por todos nós, afortunados fãs, como Preta queria, como pediu até o fim. Gil recolheu os cacos e atendeu ao pedido. Pode haver declaração de amor maior?
Drão, agora, ganha um novo significado, como um recado para seu próprio criador: não pense na separação, não despedace o coração... Quem poderá fazer todo aquele amor morrer?
Imenso monolito, gigantesco e concreto, duro feito pedra, o verdadeiro amor se estende ao infinito. E muito além.
Canta, Gil, canta.


