Mario Quintana estaria triste, se vivo fosse. Na calada da noite, sem alarde, a placa de bronze com o mais famoso e belo poema já escrito sobre Porto Alegre foi surrupiada da cidade.
Eternizados na Praça da Alfândega, na abertura da Feira do Livro de 1984, os versos de O Mapa (leia na íntegra no fim do texto) permaneciam intactos até o início deste ano. Ficavam em um pedestal de concreto junto à feirinha de artesanato (perto da Rua Sete de Setembro).
A estrutura estava esquecida e decrépita, mas seguia firme, até que foi arrancada a fórceps — serviço concluído com sucesso, para o ladrão, não para Porto Alegre.
Que vergonha.
Foi a fotojornalista Liane Neves, a Lica, quem me alertou sobre o furto. Ela retratou poeta no seu aniversário de 80 anos, em 1986. Na época, flagrou o gênio na intimidade e também nas ruas do Centro Histórico, por onde ele gostava de flanar.
Num desses passeios, os dois passaram na praça. Ali, Lica registrou o autor, de bengala, ao lado do monumento (é a imagem que você no alto deste texto).
— Era um orgulho para ele. Lembro bem disso. Infelizmente, alguns meses atrás, fazendo um passeio guiado pela região, me dei conta de que a placa não estava mais lá — disse Lica, com quem fui até o local na última semana, para ver o estrago de perto.
Sobrou apenas o concreto, cinza, sem graça e morto.
— Faz uns três, quatro meses. Um dia, abrimos as bancas e a placa não estava mais lá — contou a artesã Odete Severo.
— Levaram o poema para trocar por pedra (droga) — lamentou Marcelo Camargo, outro feirante que atua nas redondezas.
Teria sido em janeiro ou fevereiro. Não se sabe ao certo. Não foi notícia. Não causou alvoroço. Não gerou protesto.
A memória da cidade, lamentavelmente, vai se perdendo.
Pela recuperação do patrimônio perdido
Em 2026, serão celebrados os 120 anos de nascimento do célebre poeta gaúcho, nascido no Alegrete em 30 de julho de 1906.
Vamos deixar o furto por isso mesmo?
Dá tempo: a placa com o poema de Quintana merece ser refeita, pela prefeitura ou pela iniciativa privada.
E mais: merece, também, ser realocada, para que fique em um local de maior visibilidade na praça.
Isso não pode ficar assim. Quintana não merece o descaso. É um patrimônio dos gaúchos.
LIANE NEVES
Fotojornalista
O Mapa*
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(E nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...
* Mario Quintana, em Apontamentos de história sobrenatural (1976)


