
Duas delas foram inventadas. Descobri isso na última semana, ao entrevistar Leticia Wierzchowski para o Perimetral Podcast (se você ainda não conhece, acesse aqui). Foi da mente desta grande escritora gaúcha que nasceu o best-seller A Casa das Sete Mulheres, lançado em 2002 e alçado ao estrelato depois de virar minissérie na TV Globo.
Há duas décadas, Leticia decidiu retratar o ponto de vista feminino de um dos episódios mais violentos da história deste nosso chão: a guerra dos farrapos.
A inspiração veio de Varões Assinalados, obra-prima de Tabajara Ruas que descreve algumas das mais alucinantes cenas de batalhas já registradas.
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Lá no meio, quase “de revesgueio”, está a menção ao casarão da Estância da Barra, às margens do rio Camaquã, com suas ilustres ocupantes. Eram “as parentas de Bento Gonçalves da Silva”, o estancieiro que liderou a contenda contra o Império, pelos altos impostos cobrados sobre o charque. As mulheres eram meras figurantes em um mundo ditado pela força física e pelo fio do bigode.
Leticia provaria, com sua verve poética potente, que elas eram muito mais do que isso.
Foi Marcelo Pires, publicitário, hoje ex-marido da autora, quem chamou a atenção dela para o pequeno tesouro à margem da história.
— Teu livro está ali — disse Marcelo, como quem antevia o futuro.
Ele estava certo. Nos idos do ano 2000, Leticia mergulhou na saga farroupilha, empreendendo longa pesquisa historiográfica. Revirou arquivos até encontrar os rastros de cinco habitantes da famosa casa: Caetana, mulher de Bento, Ana e Maria Manuela, irmãs dele, Manuela e Perpétua, sobrinhas do general. As outras duas... bem, agora você já sabe.
— O Taba (Tabajara Ruas) falava em sete mulheres, mas não teve jeito, só encontrei cinco. O que eu fiz? Inventei as que faltavam, afinal, sou uma romancista — revelou a autora, em nosso bate-papo, rindo da traquinagem.
A verdade é que o texto, ao unir ficção e realidade, toca a gente. Quando reli a obra (vale a pena), foi como se eu dividisse com aquelas senhoras de outrora a longa espera por seus homens — maridos, pais, tios, primos, pretendentes.
Com propriedade, Leticia traduziu angústias que, de alguma forma, sempre acompanharam (e seguem acompanhando, em pleno século 21) a existência feminina, ainda que de outra forma.
Falo de uma sensação ancestral que nos acompanha, a nós mulheres, por onde quer que andemos: um sentimento quase instintivo que nos faz sentir responsáveis por todos ao redor, mesmo sem querer, mesmo sendo livres e independentes.
Leticia teve a coragem de subverter o protagonismo de um fato histórico caro aos gaúchos. Ao dar voz a mulheres, entrou pela porta dos fundos da história, e talvez por isso sua criação continue fazendo tanto sucesso até hoje.
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Só depois que o livro ficou pronto, Leticia teve coragem de fazer a fatídica pergunta a Tabajara Ruas:
— Taba, de onde tu tiraste sete mulheres?
— Sei lá, botei sete porque é um número cabalístico - brincou o célebre escritor.

