
Prestes a completar três meses à frente da Secretaria de Estado da Cultura, Eduardo Loureiro me recebeu em seu gabinete, no 10º andar do Centro Administrativo do Estado, em Porto Alegre, para fazer um balanço do período e projetar os desafios pela frente.
Diante de esculturas de Sepé Tiaraju e das ruínas de São Miguel, Loureiro falou sobre o ambicioso projeto de celebração dos 400 anos das Missões (um dos grandes eventos do RS em 2026) e o incentivo inédito de R$ 17,7 milhões para CTGs e entidades tradicionalistas, duas das prioridades de sua gestão, que abarcam milhares de gaúchos e gaúchas.
Também respondeu a críticas da classe artística em torno de sua nomeação e a questionamentos sobre a continuidade de ações em outras áreas da cultura que vinham em andamento.
Garantiu apoio à ópera (gênero do qual disse gostar) e ao Instituto Estadual de Artes Cênicas (Iacen), acéfalo desde que assumiu o cargo. Destacou como prioritária a reforma do Teatro do Ipê, cujas tratativas começaram em 2022, quando a secretaria assumiu a gestão do espaço, fechado há mais de 15 anos.
Por fim, o secretário contou o que planeja deixar de legado nos nove meses que ainda tem pela frente no cargo (ele sairá em abril de 2026 para concorrer a deputado estadual ou federal pelo PDT).
A seguir, leia os principais trechos da entrevista.
Como estão os projetos dos 400 anos das Missões?
Estão andando. A gente está fazendo todo um trabalho de monitoramento da execução das obras.
E como está isso?
Foram assinados os convênios, e agora a responsabilidade é dos municípios. A gente acabou fazendo dessa forma porque, se o Estado fosse contratar as obras, seria muito complicado. O município tem mais facilidade de executar. Então a gente passa o recurso, e o município dá uma contrapartida. Vários projetos já começaram, mas ainda está tudo em fase inicial.
Já têm obra em andamento?
Não, obra ainda não. O processo licitatório leva 40, 50 dias, na melhor das hipóteses. Eu diria que nenhuma obra vai começar antes de 60, 90 dias.
Vai dar tempo? Estará tudo pronto até a celebração dos 400 anos?
Acho que teremos algumas entregas. Todas não, com certeza. Não tem como. Vai depender muito do trabalho dos municípios. Os convênios foram firmados a partir de projetos executivos prontos. Teve toda uma mobilização que foi evoluindo, e o governador comprou a ideia. Ele teve essa sensibilidade. Quando a gente fala em Missões, de certa forma estamos falando do Estado todo. O primeiro ciclo missioneiro abarcou praticamente todo o RS.
Qual dos projetos o senhor considera mais relevante?
Tem um projeto especial que ainda não foi assinado, por questões burocráticas, que envolve um grande centro cultural, que vai abrigar o Museu das Missões. Hoje ele tem estrutura modesta dentro do sítio arqueológico de São Miguel. A ideia é termos um grande centro de interpretação da história, que envolverá o museu, auditórios, salas de exposição, espaço para a comunidade indígena e para o artesanato missioneiro. É um grande projeto.
Vai ser um desafio concluir tudo isso até 2026, não?
Vai ser um grande desafio. O ideal seria que a gente tivesse tudo entregue até dia 3 de maio (data da fundação da primeira Redução, de São Nicolau, em 1626). Nem todas as obras estarão prontas, mas vai ficar um legado. Esse é um momento único, porque despertou a atenção do Estado e do governo de modo especial para realmente alavancar o desenvolvimento daquela região. Não quer dizer que a gente vá resolver tudo agora.
E o investimento de R$ 17,7 milhões nos CGTs? Como vai impactar a sociedade?
É uma grande valorização da tradição gaúcha, que expressa muito da nossa identidade. Tenho dito que a cultura é ampla. Ninguém está resumindo a cultura gaúcha ao tradicionalismo, mas é importante valorizar e reconhecer esse movimento, que tem grande potencial. Temos 1,7 mil CTGs no Estado e mais de 2 mil piquetes. Isso tem uma dimensão muito grande. A gente vai conseguir não só ajudá-los, melhorando a estrutura e o trabalho que eles desenvolvem na área da cultura, como também capacitá-los para buscar outros recursos. Eles ainda têm dificuldade de fazer isso.
E para a população, qual será o impacto?
O recurso será distribuído em duas faixas, de R$ 20 mil e R$ 40 mil, para 550 entidades. Há uma diversidade grande em relação às demandas. Temos, por exemplo, as invernadas culturais, os grupos de dança, e muitos jovens têm dificuldade de participar, porque não têm dinheiro para comprar as roupas. Então, o CTG poderá utilizar o recurso para isso. Ele poderá também contratar oficineiro, instrutor de dança, de qualquer outra atividade cultural. Poderá, eventualmente, fazer alguma melhoria estrutural. Cada CTG envolve centenas de pessoas. É importante salientar o impacto na economia e o aspecto do turismo. Meu sonho seria transformar a Semana Farroupilha em um grande atrativo turístico.
Como acontece com o Festival de Parintins, por exemplo?
Isso. Como o Carnaval do Rio de Janeiro. Precisamos articular isso. Muitas vezes é uma questão de embalar tudo e explorar turisticamente. Como primeiro passo, a gente vai lançar um site.
Um site do tradicionalismo gaúcho?
Um site reunindo todas as informações em relação à tradição, à história do Rio Grande, dando foco para as festividades farroupilhas. A ideia, depois, é lançar um aplicativo com um mapa interativo onde as pessoas vão encontrar toda a programação por cidade. Mas tudo isso sem prejuízo a nenhuma outra área da cultura. Tenho dito muito isso.
Uma parcela da classe artística não gostou da sua escolha, por entender que foi política e por achar que o senhor daria prioridade aos CTGs. Como responde às críticas?
O meu compromisso, primeiro, é não fazer ruptura. A Bia (Beatriz Araujo, antecessora no cargo, cuja permanência foi defendida em abaixo-assinado com centenas de adesões) fez um belo trabalho. Aliás, ela estruturou a secretaria, que foi recriada no governo Eduardo Leite. Então, logicamente, meu compromisso é dar continuidade a tudo aquilo que está funcionando. Nós não descontinuamos nada, muito pelo contrário. Estamos até procurando reforçar as ações que vinham sendo desenvolvidas. A cultura é extremamente diversa, e essa diversidade toda precisa e vai ser respeitada.
Não são só os CTGs?
Não são só os CTGs. Podem ficar tranquilos. Por exemplo, eu tenho falado muito com a Cors (Companhia de Ópera do RS). Temos um projeto chamado Ópera e Formação que está andando. Está todo formatado, mas não havia recurso disponível e estamos buscando suplementações, o que não é fácil, por conta das limitações financeiras.
Esse programa não tinha recurso garantido?
Ele estava desenhado, mas ainda não havia o recurso. Conseguimos uma suplementação. Conversei com o governador. Estamos vencendo todas as etapas. Enfim, é uma caminhada, mas vai sair. Vai ser executado. É um projeto fantástico. Tu conheces bem.
Sim, acompanho. Sou fã. E também gosto dos CTGs.
E eu também gosto de óperas. Esse projeto tem de sair, mas tudo é uma luta. Tem também a questão dos equipamentos culturais. Nós estamos agora numa luta pelos recursos para o Teatro do Ipê.
E como está isso? Vai sair a reforma?
O projeto de reforma está pronto. São R$ 14 milhões e estamos trabalhando nisso. É prioridade.
E o Instituto Estadual de Artes Cênicas? Desde que o senhor assumiu, ele está sem direção.
Isso está sendo tratado. Já temos um nome e estamos aguardando a nomeação pela Casa Civil.
Tem risco de o instituto ser encerrado?
De forma alguma. Não houve nenhuma decisão ou movimento para enfraquecer ou muito menos acabar.
O que o senhor quer deixar como legado?
Em primeiro lugar, manter e potencializar tudo aquilo que já vinha acontecendo. Não fazer ruptura e não piorar nada. E eu acho que a gente está agregando algumas pautas importantes, como a questão do Ipê e a questão das Missões. Não é segredo para ninguém que assumi para dar visibilidade a isso, para dar efetividade. Acho que tem muito mais coisas ainda para acontecer. E tem essa questão da tradição gaúcha, sem que isso signifique nenhuma diminuição ou redução de qualquer outra ação ou qualquer outra área da cultura.






