
À frente de um dos grupos mais tradicionais de Gramado, o empresário Luciano Peccin, fundador da coleção Casa Hotéis (leia-se Casa da Montanha, Wood, Petit, VinoLab e Parador Cambará do Sul), acompanha com atenção – e uma dose de "pessimismo otimista" – as mudanças em curso na cidade.
Recentemente a prefeitura decidiu suspender a construção de novas hospedagens e de restaurantes no centro do principal destino turístico do Rio Grande do Sul.
Idealizador do Natal Luz e uma das mentes por trás do salto turístico vivenciado por Gramado desde os anos de 1980, Peccin defende que é necessário, mais do que nunca, repensar os rumos. Nas palavras dele, "Gramado não pertence mais aos gramadenses".
Conversei com Peccin no último fim de semana, em uma das salas do luxuoso Hotel Casa da Montanha, prestes a completar três décadas. Falamos sobre o passado, o presente e o futuro de Gramado. Leia a seguir os principais trechos da entrevista exclusiva.
Como era Gramado na sua infância?
Gramado sempre foi uma cidade muito charmosa, né? Era uma cidadezinha de Interior. Na época, os veranistas vinham para cá e ficavam aqui nos meses de janeiro e fevereiro. Isso nos idos de 1940, 1950, por aí.
Por que eles vinham?
Primeiro, porque não tinha a cultura de ir à praia. Não existia nem a freeway ainda. Era difícil de chegar, uma coisa muito remota. E a Serra, onde havia trem, passou a ser um local bom para a saúde, indicado pelos médicos. Muitos veranistas, de famílias importantes de Porto Alegre, vieram e construíram casas aqui. Isso tudo, graças a um maluco chamado Rosenfeld.
Quem foi ele?
Um agrimensor que veio da Alemanha medir um loteamento na região do Lago Negro. Ele acabou ficando com a terra. Esse cara foi de uma inteligência fantástica. Ele foi a Porto Alegre oferecer lotes para as famílias de origem alemã. Dava o terrenos de graça, desde que elas fizessem a casa que ele projetasse. Foi um visionário. Essas famílias vieram e, para se instalar aqui, trouxeram um pouco da mordomia. Criaram clubes, convidaram gente para abrir restaurante, e assim foi.
Assim tudo começou?
Foram esses caras que vieram e nos ensinaram como fazer. A minha geração já pegou isso pronto. Eu convivi com os filhos deles, e a nossa turma deu continuidade a essa história. E tem mais um detalhe: havia uma rivalidade com Canela. Queríamos fazer mais e melhor, isso nos fez crescer.
Até que veio o salto no turismo, com o Natal Luz?
Antes disso, teve um momento em que os veranistas deixaram a Serra e passaram a ir à praia. Ninguém mais vinha para cá, a não ser no inverno. Ficávamos 90 dias às moscas. Percebemos que tínhamos de fazer alguma coisa. Começamos com a Festa das Hortênsias. Depois, veio o Festival de Cinema e aí surgiu o Natal Luz.
E Gramado hoje? Qual é a tua visão da cidade?
Gramado tem que ser repensada.
Perdemos a cidade encantada, mas ainda somos a cidade mais desejada. A questão é que a gente quer ir para um lugar sempre melhor do que o nosso. Ninguém vai para um lugar pior.
LUCIANO PECCIN
Empresário
O que o senhor achou da suspensão a novos hotéis e restaurantes?
Isso é perfeito. Não deveria ser por seis meses, mas por seis anos. Ou ser prorrogável. Eu concordo plenamente. Acho que temos de repensar o que queremos. Não somos mais aquela cidadezinha encantada do passado.
Gramado perdeu as características originais?
De certa forma, sim. Isso não significa que nós não continuamos sendo Gramado, a cidade mais desejada do Brasil. Perdemos a cidade encantada, mas ainda somos a cidade mais desejada. A questão é que a gente quer ir para um lugar sempre melhor do que o nosso. Ninguém vai para um lugar pior.
E repensar Gramado como? Qual é o futuro da cidade?
A primeira coisa que temos de aceitar é que Gramado não é mais do gramadense, Gramado é do turista. Precisamos nos adaptar a uma cidade turística.
O que isso significa?
Escola, prefeitura, hospital, rodoviária, nada disso deveria seguir no Centro, onde está o turista. Isso não existe em nenhuma grande cidade turística do mundo. Temos de nos adaptar, tirar as áreas administrativa, financeira e escolar do Centro. É a primeira atitude.
Atitude corajosa...
E cara. Mas tem de acontecer. Por exemplo: o estacionamento em volta da prefeitura, de quem é? Dos servidores.
E deveria ser dos turistas?
Claro. Aquele local pode ser transformado em uma outra coisa importante para o turista. O turista não anda de carro. Ele faz passeios. Quem anda de carro somos nós. Quem buzina somos nós, mas nós temos de nos acostumar. Fomos nós que ensinamos a parar na faixa de segurança. Nós temos que nos acostumar com isso também.
Temos de ter uma comissão que examine e diga "não, isso não serve.
LUCIANO PECCIN
Empresário
E o que mais?
Outra coisa que tem que acontecer é o seguinte: nós não somos mais a cidade encantada, mas somos Orlando (referência à Disney). Sendo Orlando, tem a parte boa e a parte ruim. Não podemos sair liberando hotéis, parques e uma série de coisas só porque alguém quer abrir um negócio aqui. Temos de ter uma comissão que examine e diga "não, isso não serve". Gramado tem muitos parques e empreendimentos que talvez não falem muito do que é a cidade nem da cultura local.
Pois é. Empreendimentos que não dialogam com a identidade são cada vez mais comuns, não é?
Exatamente. Está se vendo muito ouro e pouca cidade. Na nossa época, nós pensávamos nas cidade. Não é à toa que estamos vendo uma mudança no público, só que não é de quantidade que precisamos. Temos de repensar Gramado também para voltar a atrair o público que interessa. Precisamos reformular o Natal Luz, fazer shows de alto nível, terminar com eventinhos porcaria. Gramado não precisa disso. Liberam qualquer buraquinho para o cara abrir um restaurante. Não pode. E tem hotel com 300, 800 apartamentos. O problema é esse.
É um problema gravíssimo e bom por outro lado. A multipropriedade veio para ficar e não vai sair. O problema é o achaque que os turistas estão sofrendo. O problema é definir o tamanho e a forma de venda. Alguns investidores estão usufruindo da cidade, estão vendendo, pegando dinheiro e indo embora. Fica o prédio aqui e se virem.
E as plataformas de aluguel, como o Airbnb?
Tem de regular. Temos, se não me engano, de 3 a 4 mil apartamentos na região pelo Airbnb, sem regulação. Hoje, para alugar um apartamento de Airbnb em Nova York, só pode se for por no mínimo 15 dias. Se não, tu não alugas. Bom, eu quero alugar por sete, paga 15 e fica sete. Regular não é proibir. Isso vale para a multipropriedade também. Ninguém pode dizer como é que eu vou comercializar o meu produto, mas pode regular a forma de fazer.
Mas são medidas polêmicas, não?
Nós temos que cuidar da cidade. Se Gramado quebrar, nós quebramos junto. Então, temos de cuidar da cidade. Como diz o prefeito, problemas de água e esgoto, tudo isso já está acontecendo. Temos de adotar ações fortes. Entrada de ônibus, por exemplo, tem que pagar.
Como em Bombinhas (SC), que tem taxa de acesso?
Sim. Isso está acontecendo em lugares no mundo todo. Olha Veneza, olha a Europa. Os caras estão jogando água nos turistas. Tem uma revolta dos moradores. Talvez em Gramado as pessoas sintam um pouco isso também, porque a cidade mudou muito em muito pouco tempo, e vai bater no bolso.
Sua visão do futuro é pessimista?
Vamos lá, hoje eu sou pessimista, mas tenho otimismo, desde que as coisas comecem a ir para o lugar. Se forem feitas todas essas medidas, sou otimista. A suspensão de construções é um bom começo.


