Esperada há 30 anos, a sede do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS), no 4º Distrito de Porto Alegre, entrou na fase final de obras. A previsão é de que o novo espaço seja inaugurado no mês de agosto.
É uma baita notícia para a cidade e para a população gaúcha.
Estive lá nesta semana para ver de perto a evolução do trabalho, e o lugar está ficando incrível.
Veja o vídeo que preparamos
No salão expositivo, a primeira exibição já está em fase de montagem, com uma obra do artista paulista Nuno Ramos (leia mais no fim do texto).
No jardim, dois bondes fabricados em 1927 passam por restauro — eles serão usados para atividades educativas e eventos (mais detalhes abaixo).
Além disso, já há criações artísticas instaladas ao ar livre: duas esculturas (de Vasco Prado e de Patricio Farías) e uma enorme Mona Lisa em forma de mosaico (marca registrada da artista plástica Silvia Marcon).
— Estamos na reta final. É uma alegria imensa ver a obra quase pronta — comemora Adriana Boff, diretora do MACRS.
De fato, é uma conquista e tanto. Os trabalhos começaram em janeiro de 2024 com investimento do Estado estimado em R$ 5 milhões (o museu é vinculado à Secretaria de Estado da Cultura) e uma série de apoiadores privados. Trata-se de uma área de 2,3 mil metros quadrados na Rua Comendador Azevedo, nº 256, onde, no passado, funcionou um depósito de veículos do Detran-RS.
Não foi fácil chegar até aqui. Os serviços foram interrompidos pela enchente de 24, quando a água inundou tudo por um mês. Passou.
Agora, já dá para ver a área da futura cafeteria, os banheiros e os pergolados no pátio, com uma figueira centenária e um jambolão preservados, fazendo uma sombra bonita.
Haverá mesas e cadeiras, bancos, espelho d’água, acessibilidade (é o primeiro equipamento cultural da Sedac 100% acessível) e imensas portas de vidro na fachada sem muros.
Será um belo espaço de lazer, gratuito e democrático, em uma região que ainda luta para se reerguer — e que merece isso.
Os bondes
Os bondes preservados pelo museu ainda exibem a numeração de suas antigas linhas: 128 e 193.
Segundo o arquiteto Lucas Volpatto, da Studio 1 Arquitetura, responsável pela restauração, são veículos com eixo duplo (originalmente com 44 lugares cada), construídos pela Osgood-Bradley, em 1927, para a Worcester Street Railway, em Massachusetts (EUA).
Eles chegaram a Porto Alegre em 1946, onde operaram, possivelmente, até o fim do sistema de transporte.
Restou deles a carroceria, o velho para-brisa, parte da estrutura das rodas e o charme irresistível. Por dentro, não sobrou muita coisa. Um deles, inclusive, sofreu um incêndio no passado e exigirá cuidado extra.
— Vamos restaurar toda a parte externa deles. Vão ficar lindos, exatamente como era. A parte interna ganhará um piso e ficará livre para as atividades do museu — conta Lucas.
Junto deles, foi construída uma estrutura que lembra uma plataforma. Ela ganhou telhado e também será usada pelo MACRS.
A primeira exposição

Com curadoria de André Severo, a mostra inaugural será a instalação Três Casas, de Nuno Ramos. Exibida uma única vez em Belo Horizonte (MG), em 2012, a obra ocupará o salão inteiro e já está sendo montada.
Serão três réplicas em tamanho real de casas onde o autor morou ao longo de sua vida. Cada uma delas será recriada em diferentes materiais (mármore, granito e areia) e estará submersa em piscinas de lama escavadas diretamente no piso da galeria.
Em diferentes cores, a lama evocará camadas de significados e simbolismos. Aqui, no RS, fará a gente refletir sobre as mudanças climáticas e os eventos extremos, como a enchente de 2024. Nuno veio ao Estado ver de perto os estragos e entendeu que sua criação de certa forma dialogava com tudo o que se passou.
Como descreve o curador, o trabalho ajuda "a contemplar o efêmero e o eterno e nos convida a atravessar esse limiar entre presença e ausência, memória e esquecimento". Ao caminhar pelo espaço caracterizado pela obra, "somos chamados a refletir sobre o próprio ciclo da existência", com raízes, perdas e transformações.
Por trás da obra

O investimento do governo do Estado, via Secretaria de Cultura, deve chegar a R$ 5 milhões, incluindo a obra, as mobílias e o restauro dos bondes.
A obra também tem a parceria da associação de amigos do MACRS, liderada por Maria Fernanda Santin, e de uma série de patrocinadores via leis de incentivo: Itaú (com patrocínio master), Vulcabras, Tintas Killing e Alibem, com apoio de Trinca e TecBril.
O projeto executivo é do arquiteto Tarso Carneiro, da AT Arquitetura, o paisagismo é de Christine Loro e Eduardo Assmann e o projeto de mobiliário e da praça frontal (junto à calçada) é da arquiteta Izabela Pagani. Os bondes são restaurados pelo escritório Studio 1 Arquitetura, liderado pelo arquiteto Lucas Volpatto.
A nova marca e comunicação visual foram criados pela Casa CC.



