
A convidada do Perimetral Podcast dessa semana é uma grande artista gaúcha, e não só pela voz, mas pelo que representa.
Shana Müller deu um drible no machismo ao questionar letras de músicas tradicionalistas e ao criar um baita festival nativista: o Peitaço da Composição, que destaca mulheres cantoras, compositoras e instrumentistas. Ela também marcou a história do Galpão Crioulo, na RBS TV, ganhou um caminhão de prêmios e hoje leva seu show Canto de América para o Brasil e o mundo.
Em 40 minutos de conversa, falamos sobre isso e muito mais. O episódio completo entra no ar, no YouTube de GZH, ao meio-dia desta sexta-feira (25).
Veja a íntegra da entrevista
A seguir, confira os principais trechos do bate-papo.
Tu sempre foste meio nômade, circulando pelo Estado, né?
Meu pai era gerente de banco, então me fez ir para várias cidades. Numa determinada época, caímos no Alegrete. Ali começou toda essa relação com a cultura gaúcha. Eu encasquei que queria ser primeira prenda e fui estudar as coisas do Rio Grande do Sul. Minha história com a cultura gaúcha é muito profunda, por isso eu sempre digo: tenho muita tranquilidade para questionar, porque eu vivi isso em toda a minha juventude. Usei o vestido de prenda por essa e pela próxima encarnação.
Pois é, em 2017 tu escreveste um artigo polêmico, questionando o machismo em letras de músicas tradicionalistas. Dizia assim: “não sou china, não sou égua, nem quero que o velho goste”. Hoje a crítica soaria óbvia?
Se eu escrevesse hoje, ia causar o mesmo efeito.
Não mudou nada?
Na visão das pessoas em relação à tradição, acredito que não. Talvez a frase que tu citaste seja a mais polêmica do texto, porque é de uma música consagrada pela Berenice Azambuja, que também sofreu preconceitos (houve um episódio em que ela quis cantar usando bombacha, mas mandaram usar vestido de prenda). Não é que o velho não possa gostar de mulher, mas a forma como a mulher é inserida na frase é um equívoco.
E cantávamos sem perceber...
Nossa, muito baile dancei com essas músicas. Só que o mundo mudou, e a gente vive num país e num Estado que têm um número de feminicídios absurdo. Achar que a música não tem poder sobre isso é muita inocência.
É verdade que rebateram a crítica questionando por que tu não escrevias sobre o funk?
É, mas eu não trabalho com funk, gente. Minha história com a cultura gaúcha é muito profunda. Eu integro esse movimento. Tenho tranquilidade para questionar. As pessoas ficam na superfície do entendimento que lhes convêm, né? Acredito que a tradição precisa se movimentar. A tradição, como já foi dito, é uma invenção e, às vezes, precisa ser reinventada. Quando ela não dialoga mais com a realidade de um tempo, está fadada ao esquecimento.
A tua chegada, de certa forma, oxigenou o tradicionalismo. Até lançou moda, né?
Eu inventei um jeito de vestir, né? Eu gostava de usar bombacha, mas não me sentia bonita de bombacha no palco. Tenho aquele corpo violão, sou maior embaixo, então não ficava legal, não ficava elegante. Aí comecei a inventar. Fui numa costureira de flamenco, mandei fazer uma saia, aí peguei umas faixas que eu tinha trazido da Argentina e mandei transformar num corset (espécie de espartilho, usado para modelar a cintura). Daqui a pouco as gurias estavam se vestindo como eu nos shows. E aí uma empresa me procurou e disse: "Ah, a gente queria que tu fosse nossa garota propaganda". Eu respondi: "Eu não quero ser tua garota propaganda. Eu quero que tu faça a minha marca". Assim lancei minha marca em 2007, por aí.
Saiu até no Caderno Donna, da Zero Hora...
Sim. Antes, quando tu entrava numa loja de pilcha, tinha "N" itens para os homens e um só para as mulheres, o vestido de prenda. Muita gente não se identifica mais com essa roupa, né? E a saia e a blusa... às vezes a pessoa compra a saia e usa a blusa que já tem em casa. Então começou a se criar uma outra uma outra forma e um mercado que se abriu abriu. Eu cheguei a ouvir numa rádio algo assim: "Aqui você encontra as saias estilo Shana Miller". Virei um estilo.
E de onde veio a ideia do Peitaço da Composição?
Daquele artigo que escrevi lá de 2017. Ali nasce uma tentativa de trazer as mulheres para a baila. Nós não temos compositoras mulheres e, quando temos, são geralmente melodistas. Tu encontra uma ou outra em algum momento dos festivais, geralmente uma poetisa, tipo a Jurema Chaves. Mas não é algo comum.
E por que que as mulheres não compõem?
Não descobri até hoje. Mas há fortes indícios, né?
Quais?
Ah, de um mercado já estabelecido pelos homens, de uma forma estabelecida de composição, com um olhar masculino sobre uma cultura que é baseada em cima da figura masculina. Então, às mulheres sempre restavam as canções de amor, mas canção de amor não é uma canção gaúcha, sabe? Então, assim, muitos são muitos muitos porquês.
Aí o peitaço surgiu para dar holofote, para jogar luzes sobre essas mulheres?
Para instrumentalizar essas mulheres. O Peitaço da Composição tem acampamento e oficinas. E às vezes as pessoas dizem: "Ah, ele é uma resposta à barranca" (Festival da Barranca, que acontece à beira do Rio Uruguai, em São Borja, e é o mais antigo festival de música gaúcha). Não, não é uma resposta à barranca, que, para quem não sabe, é um festival fechado para homens. Eu não tenho nada contra a barranca. Por que os homens não podem fazer um evento só para eles? Eles podem. E o Peitaço virou um lugar da intimidade feminina. Ele nasceu para entender porque as mulheres não compõem e de alguma maneira criar um ambiente onde isso se propusesse de uma maneira livre, sem amarras, sem olhares proibitivos.
O que tem no Peitaço?
Oficinas de música, de poesia, de escrita. Também acontece numa fazenda (a fazenda da família de Shana, em Júlio de Castilhos), a gente acampa, não tem homens. É catártico. A gente se senta ao redor do fogo, conta histórias. São três gerações, quase quatro, convivendo juntas.



