
O transporte público coletivo da Região Metropolitana de Porto Alegre pede socorro. Em 20 anos, o número de passageiros de ônibus despencou 65%.
Em 2006, 144 milhões de pessoas, incluindo pagantes e não pagantes, usaram o transporte que liga os municípios da Grande Porto Alegre à Capital. Em 2019, antes da pandemia, o número já havia caído para 89 milhões.
Em 2024, 51 milhões de pessoas usaram o transporte. O levantamento, contratado pela Associação dos Transportadores Intermunicipais Metropolitanos de Passageiros (ATM), foi coordenado pelo economista Gustavo Inácio de Moraes, doutor em Economia Aplicada e professor da PUCRS.
— O transporte público tornou-se menos frequente com busca de emprego ocorrendo de modo online. Essa tendência foi exacerbada pela pandemia. Também houve a chegada de novas alternativas de transporte, como aplicativos de carros e motos. Citaria também o papel da recessão econômica entre o final de 2014 e início de 2017. E, ainda, as inundações, que por dois ou três meses prejudicam as empresas no volume de passageiros — avalia Moraes.
O estudo aponta também que a queda ocorreu em paralelo a um aumento dos custos do sistema. Entre 2020 e 2024, a alta de combustíveis, reajustes nos salários, manutenção e compra de equipamentos foi 13,6% superiores à receita arrecadada por passageiro.
Este desequilíbrio que tem comprometido a sustentabilidade da operação. A defasagem total do sistema é avaliada em R$ 51,5 milhões desde 2020.
Esses valores são referentes somente à reposição da operação, sem considerar os investimentos necessários. Atualmente, 29 empresas atuam em 34 municípios da Região Metropolitana, com contratos precários.
Ao todo, mais de 220 mil passageiros são transportados por dia. Em grande parte, são trabalhadores de menor renda que moram em municípios na Grande Porto Alegre, que dependem do sistema para chegar aos seus empregos - em hospitais, escolas, shoppings, restaurantes e outros serviços - na Capital.
O governo do Estado contratou a Fundação Getúlio Vargas (FGV) para desenvolver um estudo que irá redesenhar a rede, considerando as necessárias integrações com o transporte municipal e também com o Trensurb. Depois disso, será elaborado um edital do primeiro projeto de concessão do transporte metropolitano de passageiros da Região Metropolitana será construído e deverá passar por consulta pública e avaliação do Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Subsídio
Enquanto isso, o sistema mingua. O governo chegou a socorrer as empresas de ônibus com um auxílio emergencial, que foi descontinuado.
— Os dados mostram que seria necessário somente 0,06% do orçamento do governo do Estado atualmente para o reequilíbrio do sistema — comenta o presidente da Associação dos Transportadores Intermunicipais Metropolitanos de Passageiros (ATM), José Antônio Ohlweiler.
Ar-condicionado
A falta de dinheiro faz com que as empresas não consigam investir na compra de ônibus com ar-condicionado. Conforme decreto estadual, as empresas não são obrigadas a oferecer o equipamento nestas linhas. Mas a falta dele afugenta os usuários.
— Chama atenção a idade da frota. Se houver interesse na melhoria da prestação do serviço, há necessidade de se incorporar novos equipamentos — avalia o professor Moraes.
Censo
Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que três em cada quatro trabalhadores do Rio Grande do Sul (77%) demoram até 30 minutos para chegar ao trabalho. O número totaliza 3,2 milhões de pessoas.
Queda na Capital
O número de passageiros de ônibus em Porto Alegre caiu quase pela metade nos últimos 15 anos. O primeiro semestre de 2025 teve 79 milhões de passageiros transportados.
O número é 48% inferior ao registrado em 2010, quando mais de 150 milhões de pessoas utilizaram os coletivos na Capital. Apesar da queda observada, o resultado dos primeiros seis meses de 2025 indica uma leve recuperação em relação aos últimos cinco anos, com o impacto da pandemia no transporte público.



