
"O luto é o amor que não sabe para onde ir." (Carpinejar)
Saindo do velório de uma pessoa querida que viveu gloriosos 89 anos e deixou como legado uma doçura sem reposição, ouvi na passagem uma frase que sempre me irritou porque tem a insistência de um mantra vazio: "Ele descansou".
Dizem isso com um alívio ensaiado, como se a morte fosse uma aposentadoria compulsória, e o luto, uma burocracia desnecessária. Mas quem perguntou se ele estava cansado?
Essa pressa em decretar o descanso alheio revela a nossa arrogância contemporânea e a nossa incapacidade de lidar com a permanência do amor na velhice. Estabelecemos para os nossos velhos um "prazo de validade" invisível. Aos 80, aos 90 anos, parece que o direito à falta que o outro faz começa a prescrever. Como se a saudade tivesse que ser matematicamente proporcional à juventude de quem partiu.
Estou convencido de que o erro mais comum na arte de consolar é tentar racionalizar o sofrimento do outro. No esforço de sermos úteis, tornamo-nos estatísticos da dor: somamos os anos vividos, subtraímos o peso da doença e apresentamos o resultado como se fosse um consolo lógico. Esquecemos que o coração não sabe fazer contas; ele só sabe sentir o vazio.
Não existe momento 'certo' para o adeus, porque o amor não se baseia no tempo acumulado, mas na presença contínua.
J.J. CAMARGO
E que tal reservarmos o direito exclusivo de sentir a dor desse vazio ao neto que do nada ficou sem o avô com quem tinha aprendido que referência afetiva não envelhece?
Dizer que "foi melhor assim" ou que "ele viveu muito" é, no fundo, uma tentativa de silenciar o inconformismo alheio para aplacar o nosso próprio desconforto diante da morte. É uma forma involuntária de dizer que aquela perda não deveria doer tanto, porque a biologia já havia cumprido o seu roteiro.
A verdade é que toda perda é extemporânea. Não existe momento "certo" para o adeus, porque o amor não se baseia no tempo acumulado, mas na presença contínua.
A saudade é a prova de que o amor continua lá, tateando o vazio e buscando por alguém que o mundo já não pode devolver.
E os médicos jovens muitas vezes fogem desta situação, porque na escola nunca se fala disso, mas quem cuida de pessoas precisa estar seguro que o prontuário tem data de encerramento, mas o afeto é atemporal.
O luto não quer razões; ele quer testemunhas. Quer alguém que valide que aquela falta é, sim, cruel, desmedida e extemporânea, independentemente de quantos calendários foram percorridos.
Consolar, portanto, não é oferecer uma explicação ou um veredito biológico. É ter a delicadeza de não interromper o choro com estatísticas e a coragem de sentar-se ao lado de quem chora e oferecer um abraço, demorado e silencioso, e que será relembrado com carinho durante o tempo que durar aquela saudade, que está apenas começando.



