
"Todos os caminhos levam à morte. Perca-se." (Jorge Luis Borges)
Teoricamente, todos nós assinamos embaixo. Se nos perguntassem, em uma mesa de jantar num sábado qualquer, qual seria o cenário ideal para o último ato, a resposta seria unânime: nossa própria cama, lençóis com cheiro de amaciante, a luz suave da tarde entrando pela janela e as mãos das pessoas que realmente nos amam segurando as nossas.
Nada de tubos, nada de bipes incessantes, nada de médicos desconhecidos entrando sem bater para checar aparelhos frios.
Na teoria, a morte em casa é poética. Na prática, ela assusta tanto que preferimos terceirizá-la. Talvez porque a proximidade da morte estanque a poesia.
Ninguém nos ensina a conduzir o fim
Quando o fim se aproxima, a racionalidade que defendíamos nos discursos desmorona. Diante do abismo da terminalidade, muitas famílias recuam e exigem a transferência para o hospital. Não por falta de amor, mas justamente pelo excesso dele — e pelo pânico de não saber o que fazer com esse amor quando ele já não pode salvar nosso amado.
A verdade é que ninguém nos ensina a conduzir o fim. Não entendemos que as prioridades de quem está partindo mudam; queremos alimentar quem já não tem fome, queremos que fale quem só precisa descansar. E a presença constante daquele corpo que vai se apagando lentamente gera uma ansiedade tão densa que as pessoas suspiram amiúde porque, de tão tensas, esquecem de respirar.
Uma conhecida me disse, muito tempo depois de enterrar o pai: 'No auge do desespero, eu rezei para ele morrer logo. E passei anos achando que eu era um monstro por ter desejado isso'.
J.J. CAMARGO
No hospital, paradoxalmente, tudo parece mais seguro. Há um alívio quase covarde na frieza das paredes brancas: afinal, lá as pessoas morrem o tempo todo. A morte no hospital é institucionalizada, rotineira, "normal". Deixá-los lá nos protege do medo terrível de sermos nós os culpados por um suspiro que cessou cinco minutos antes do que deveria, apenas porque não sabíamos operar a dosagem exata do sofrimento.
O pedido de socorro de quem fica
E então, no meio desse turbilhão, surge o sentimento mais devastador de todos: a dualidade.
Como lidar com o peso de amar tanto alguém e, ao mesmo tempo, desejar que essa pessoa parta logo? É uma tortura silenciosa. Queremos que fique porque a ausência dela vai rasgar nosso peito; mas queremos que vá embora porque não suportamos mais vê-la sofrer.
Uma conhecida me disse, muito tempo depois de enterrar o pai: "No auge do desespero, eu rezei para ele morrer logo. E passei anos achando que eu era um monstro por ter desejado isso".
Não era um monstro. Era apenas humana, exausta de testemunhar a dor sem poder estancar o desespero do tempo sangrando. No fim das contas, a insistência pelo hospital não é uma escolha pela cura, mas um pedido de socorro de quem fica. É o reflexo da nossa absoluta incapacidade de lidar com o encerramento das coisas.
Planejamos a carreira, o casamento, as férias do ano que vem e as finanças da aposentadoria. Mas diante da única e absoluta certeza que nos acompanha desde o primeiro choro, comportamo-nos como crianças perdidas no escuro, tateando interruptores que já não acendem luz nenhuma.



