
"A pior dor do remorso não é o que fizemos de errado, mas o que deixamos de fazer quando ainda havia tempo." (Tolstói)
Envelhecer é aproximar-se, passo a passo, do desfecho mais previsível da existência. Ainda assim, insistimos em olhar para o fim com o espanto de quem testemunha um milagre às avessas. Nunca estamos prontos para a única certeza que carregamos.
Mas há algo ainda mais surpreendente nessa liturgia da despedida: o comportamento dos filhos na iminência da perda.
Existe um mito social, quase romântico, de que o filho mais desesperado, aquele que grita nos corredores do hospital e esmurra as mesas, é o que mais ama. O senso comum costuma absolver a revolta, atribuindo-a ao excesso de zelo.
A maturidade, porém, nos ensina a puxar essa cortina de fumaça. E o que se vê por trás dela é, frequentemente, o oposto.
Os bons filhos, aqueles que souberam amar na plenitude do cotidiano, que foram a âncora de afeto e o orgulho dos pais em vida, costumam encarar a partida com uma dolorosa, mas serena, aceitação. Há uma leveza mansa em quem sabe que a conta do afeto está zerada.
Eles choram, sim, a saudade que já começa a doer, mas transitam pela iminência da perda com o coração pacificado de quem soube amar no tempo certo.
No teatro da despedida, o amor verdadeiro prefere o silêncio do abraço contido.
J.J. CAMARGO
A revolta estridente, por outro lado, costuma revelar o mau filho. É aquele que passa a reclamar de tudo, que enxerga um relapso em cada enfermeiro e incompetência em cada diagnóstico. Para ele, nenhuma maca é macia o suficiente, nenhum analgésico funciona.
Essa fúria, contudo, não nasce do amor; nasce do remorso crônico, que, como advertiu Sartre, é a única ferida que nunca cicatriza, porque foi aberta pelo próprio homem.
Ao ver a ampulheta esvaziar, esse filho descobre, em pânico, que o tempo para resgatar o mar de afeto que ele desperdiçou simplesmente acabou. A morte bate à porta e ele percebe que não há mais amanhã para os abraços adiados, para as ligações não feitas, para a paciência que ele nunca teve.
Soterrado pelo peso insuportável da própria omissão, ele precisa de um culpado. Olhar para o espelho dói demais. É então que o médico, o hospital ou a própria vida são eleitos como vilões circunstanciais de uma perda que, na verdade, ninguém poderia evitar. A agressividade nada mais é do que a culpa gritando no escuro.
No teatro da despedida, o amor verdadeiro prefere o silêncio do abraço contido. O resto é apenas o barulho de quem tenta, tarde demais, preencher o vazio que no desespero ele tateia em vão.



