
"O homem é um ser que cuida. Se o cuidado desaparece, o próprio ser se desfaz." (Martin Heidegger)
Com raras exceções, adoecer é uma vivência coletiva. E para essa experiência, a família e os amigos nunca estão preparados, porque a fragilidade contraria o manual original de instruções sob o qual fomos treinados para a busca contínua da felicidade. Apanhados de surpresa, o paciente e seu cortejo de proteção precisam se organizar rapidamente, sublimando a vulnerabilidade, a incerteza e o medo.
Quando o médico passa a integrar o pelotão de vanguarda, há — ou espera-se que haja — um sentimento difuso de proteção, transferindo-se imediatamente a esse recém-chegado a responsabilidade por todas as iniciativas redentoras. E que esse cuidador não esqueça: cada paciente é o amor de alguém.
Na doença aguda, a exigência emocional sobre o médico é multiplicada pela necessidade de definição de prioridades, a partir de situações em que o tempo de reversão tem uma relação linear com o desfecho.
Em tempos de rotina, o roteiro se repetia: fazíamos o que tínhamos que fazer e, restabelecido o equilíbrio hemodinâmico, conversávamos com familiares dando conta do ocorrido. Sabíamos que a tendência de antecipação do futuro pode variar entre o otimismo que tranquiliza a família e a versão anglo-saxã, com o relato frio de todas as complicações possíveis, no estilo "para que não digam que eu não avisei".
Engatinhando na cirurgia torácica, fui chamado para atender o Julinho, um garoto de quatro anos com uma infecção pleural severa que provocou o colapso do pulmão esquerdo e uma grave compressão do coração. A mãe gritava na porta do bloco cirúrgico enquanto entregava o filho nos braços do anestesista.
A sala de espera é palco da ansiedade atroz de uma família.
J.J. CAMARGO
Introduzimos um dreno no tórax sem anestesia, porque ele já havia parado de respirar, e iniciamos as manobras de ressuscitação. Depois de talvez 20 minutos de massagem, o coraçãozinho reassumiu os batimentos. Passados 90 segundos que pareceram uma eternidade, as nossas próprias frequências cardíacas começaram a normalizar. Foi nesse momento de alívio parcial que me lembrei da mãe e seu desespero e me dei conta da crueldade que seria esperar o fim de todo o procedimento para lhe dar notícias.
Pedi que a enfermeira desse um jeito de avisar a mãe que o pior tinha passado. O número de vezes que ela me abraçou depois disso, apenas para agradecer por aquela preocupação precoce, acendeu uma luz na minha rotina: passei a mandar recados para a sala de espera, o que tempos depois foi facilitado pelo advento do celular, que deixo pré-discado para mensagens curtas.
Um gesto simples, mas que reconhece o abismo de distância entre os atores envolvidos: de um lado, o paciente anestesiado e um cirurgião concentrado no seu trabalho; de outro, a sala de espera como palco da ansiedade atroz de uma família consumida pela angústia. Uma agonia que se multiplica a cada 10 minutos, fomentada pelo temor de que o tempo esteja se alongando por uma complicação inesperada.
Na verdade, não faz sentido permitir que alguém sofra por uma ansiedade que poderia ser desfeita. Já nos basta sofrermos juntos por aqueles Julinhos em que tentamos, tentamos e não conseguimos notícias boas para anunciar



