
"Tudo o que eu amo é arriscado." (Clarice Lispector no livro Para Não Esquecer, de 1978)
Muitos anos antes de deparar com a precisão cirúrgica de Clarice Lispector escrita neste livro, eu já havia sido apresentado à sua tese no chão batido de um galpão de estância. Clarice escreveu que, muitas vezes, foi o medo que a tomou pela mão e a levou ao perigo, concluindo com a sua habitual crueza: "E tudo o que eu amo é arriscado". Naquela noite de tempestade da minha infância, o risco e o medo tinham dentes.
O cenário era o clássico teatro do assombro rural. Depois de um entardecer alimentado por causos de luzes misteriosas e almas penadas ao redor do fogão, o vendaval da noite resolveu dar trilha sonora às fantasias.
No meio da tormenta, um estalo repetitivo incomodava. Meu avô, com a sabedoria de quem conhecia cada dobradiça da fazenda, diagnosticou: deve ser uma janela aberta no galpão, batendo contra a parede. Olhou para mim e perguntou se eu era capaz de ir lá e fechá-la.
A materialização do medo seria cruzar a fronteira entre a segurança da luz da sala e o breu onde os monstros ganhavam forma. Para agradar meu avô, eu faria qualquer coisa que ele pedisse, e ele tinha pedido. Então eu fui.
Entrei no galpão com o coração na boca, cada sombra esticada pelo vento parecendo um braço estendido. Encontrei o raio da janela, travei o trinco com as mãos trêmulas e recuei. A vontade era de disparar em uma corrida cega, mas me segurei. Voltei caminhando rápido, mas sem correr. Havia uma etiqueta a ser mantida diante do invisível: dissimular o medo para não dar ao perigo a satisfação da minha fuga.
Contratura muscular do medo
Muitos anos depois, já adulto e com a alma curtida porque nunca faltaram tempestades, recordei a cena com meu avô. Em tom de cobrança afetuosa, confessei-lhe que jamais faria aquilo com um neto meu, nenhuma criança merecia acordar com dor nas pernas, que eu demorei anos para entender: era a contratura muscular do medo.
Meu avô riu da minha crítica, e com complacência nos olhos me ofereceu uma das maiores lições de psicologia prática que já recebi:
— Isso é bobagem. Nós todos estamos sempre morrendo de medo. A diferença é que os valentes, quando sentem medo, correm para a frente.
A mesma língua
Foi nesta conversa que a memória da minha infância e o fascínio pela literatura se abraçaram no meu peito. Compreendi que o velho estancieiro e a escritora urbana falavam exatamente a mesma língua.
Clarice sabia que o medo é o guia que nos arranca do marasmo e nos empurra para o que realmente importa — porque o que é morno não tem risco, mas também não tem vida. E meu avô sabia que a valentia não é um escudo de ferro, mas uma bússola.
Sentir o coração na boca diante do desconhecido é a nossa condição inevitável. Várias vezes na vida o medo vai nos tomar pela mão. A nossa única escolha real, aquela que define quem somos, é decidir para onde vamos correr quando o vento começar a soprar.
No fundo, sempre sabemos o que seria melhor que fizéssemos. Então fica por nossa conta e risco atravessar todos os galpões escuros que se interponham em direção à vida que nos aguarda do outro lado. E não perder muito tempo em elucubrações demoradas, porque a vida que vale a pena, essa tem pouca paciência na espera.


