
"Onde não há esperança, cabe a nós inventá-la." (Albert Camus)
Há lições na medicina que não constam nos livros, e muito menos nas aulas formais. E me dei conta de que essas lições estão sempre rondando à disposição de quem se disponha a ouvi-las. Às vezes, são sorrateiras: nos visitam ao final da tarde, quando os corredores do hospital ficam silenciosos e o cansaço nos empurra para casa, mas não sem ter o que contar.
Foi num desses crepúsculos que apreendi, e definitivamente, o que significa a tarefa sagrada de proteger o tempo que resta a quem ainda nem imagina o quão pouco ele é.
Ele era um velho boêmio de 82 anos. Carregava no olhar a vivacidade de quem havia flanado pelas noites portenhas e colecionado histórias banhadas a tango, fumaça e vinhos generosos.
Mas o motivo que o trouxera de Colônia do Sacramento era sério: um tumor de pulmão que os exames, recém-feitos, apontavam como inoperável. No jargão médico, inoperabilidade; na tradução imediata do paciente, incurabilidade.
Entrei no quarto e o encontrei sozinho, banhado pela luz morna do fim de tarde. Quando ele fixou os olhos aflitos e perguntou pelos resultados, pensei em falar, mas recuei. Não por covardia, mas por uma súbita intuição de amparo.
Disse-lhe que a patologista havia me prometido o laudo definitivo apenas para a manhã seguinte. Concedi-lhe, deliberadamente, 12 horas de trégua. Uma última noite sem o peso do diagnóstico.
A verdade é um imperativo ético, mas a hora de entregá-la é um exercício de delicadeza.
J.J. CAMARGO
No dia seguinte, após a revelação inevitável, com o tratamento que, pela tristeza do olhar, ele já intuíra ser paliativo prescrito e todas as dúvidas explicadas, ele me questionou com uma serenidade desarmante: "Mas o senhor já sabia disso ontem, não sabia?".
Fui pego de surpresa. Tentando decifrar como aquela barreira havia sido rompida, perguntei de onde ele tirara tal certeza.
"Não sei", respondeu ele, com um sorriso manso. "Talvez experiência de vida, talvez linguagem corporal. Mas não estou me queixando, doutor. Quero até lhe agradecer por ter me dado mais uma noite de esperança. E vou lhe contar uma coisa que aprendi sendo boêmio: quem não consegue proteger a delicadeza da noite não conseguirá ser generoso durante o dia."
O impacto foi muito forte. Ficamos em silêncio por alguns segundos, com aquela distância protocolar entre médico e paciente desabando. Depois de um tempo abraçados, ele tomou a vez de me consolar: "Que pena que não vou ter tempo para ser seu amigo!".
Eu só tentei protegê-lo com uma mentira piedosa, mas foi ele quem me acolheu com a sua sabedoria mundana.
Aquele velho boêmio partiu me ensinando que o bom médico precisa, às vezes, ser o guardião do sono do seu paciente. Diante da finitude, a verdade é um imperativo ético, mas o momento de entregá-la é um exercício de delicadeza.
Nem todo dia precisa terminar com a crueza de um ponto final; às vezes, a nossa generosidade máxima consiste apenas em garantir que naquela noite, a última do nosso vínculo, ainda haja espaço para o sonho.





