
"Os melhores professores são aqueles que mostram onde olhar, mas não dizem o que ver." (Alexandra K. Trenfor)
Vivemos tempos de um estranho fetiche tecnológico. Nas reuniões de planejamento acadêmico, o vocabulário é dominado por termos que mais parecem saídos de um manual de ficção científica: metarrealidade, gamificação, inteligência artificial generativa.
Projetamos salas de aula que lembram naves espaciais, convencidos de que, se o Wi-Fi for veloz o suficiente, o conhecimento saltará das telas diretamente para o hipocampo dos alunos. Pois os jovens, esses "nativos digitais" que supostamente não desgrudam do virtual, resolveram nos dar um banho de realidade.
Uma pesquisa recente da Unisinos com quase 900 estudantes do Sul do Brasil, sintetizada com brilhantismo por Isabella Sander em Zero Hora (3/5), trouxe um dado que deveria encabular os entusiastas do ensino asséptico: para a maioria absoluta, a tecnologia é apenas um acessório. O que eles buscam, o que realmente faz o olho brilhar e a mente despertar, não é o software mais recente, mas o "evento real". E esse evento só acontece quando há interação de sentimentos.
Um dos relatos é definitivo: "O que faz a diferença é o professor que ama o que faz". É a didática que não se automatiza, o sorriso que valida a dúvida, a conexão que traz a teoria para a trilha da vida real.
Para o futuro médico, a falta do preceptor é uma tragédia silenciosa.
J.J. CAMARGO
Um pró-reitor da instituição, com a lucidez que sua posição exige, admitiu: "A gente fica falando em tecnologia, inteligência artificial, mas, quando perguntamos para os alunos, eles trazem coisas que fogem desse lugar".
Essa revelação, embora reconfortante, carrega um diagnóstico sombrio quando olhamos para a formação médica atual.
Se para um adolescente a ausência do mestre torna a aula opaca, para o futuro médico a falta do preceptor é uma tragédia silenciosa. Assistimos, com uma angústia crescente, à proliferação de escolas de medicina improvisadas, onde pretendem que a tela substitua a interação humana da beira do leito. São instituições que podem oferecer bibliotecas digitais impecáveis, mas carecem do elemento mais indispensável e escasso: o professor com formação acadêmica robusta e o prazer genuíno de ensinar.
Não se forma um clínico apenas com simuladores. A medicina é uma ciência de contatos, de sutilezas no tom de voz e, sobretudo, de exemplos. O aluno aprende a ser médico observando como o seu mestre toca o paciente, como comunica uma notícia ruim, como ele mantém a dignidade diante da impotência terapêutica. Isso nenhum algoritmo, por mais sofisticado que seja, é capaz de mimetizar.
O "evento real" de que falam os jovens da pesquisa é, na verdade, a transmissão de um legado. É o momento em que o conhecimento deixa de ser informação fria e se torna sabedoria compartilhada.
Precisamos desconfiar das luzes piscantes das plataformas interativas se elas servirem apenas para mascarar o vazio de uma sala sem mestre. No final das contas, a lição mais importante dessa pesquisa é um lembrete de humildade para todos nós: a verdadeira educação sempre dependerá de quem, pelo jeito de dizer, ou por quanto acredite no que diz, seja capaz de acelerar o coração de quem ouve aquilo pela primeira vez.

