
"O amor de mãe é paz. Não precisa ser conquistado, não precisa ser merecido." (Erich Fromm)
Os manuais de avaliação de dor consideram a cirurgia torácica aberta uma experiência muito dolorosa. Para o cirurgião, o pós-operatório é um exercício de equilíbrio entre analgésicos potentes e a vigilância constante. A dor não pode ser impeditivo para uma respiração adequada. Mas, em décadas de transplantes, aprendi que existe uma variável capaz de desintegrar qualquer estatística de dor: o amor de mãe.
Desde 1999, quando iniciamos os transplantes com doadores vivos no Brasil, a presença materna revelou-se um fenômeno estatístico. Em 34 dos 40 casos que realizamos desse tipo de transplante, a mãe figurou como um dos dois doadores necessários. Não importava se o par era o pai, o irmão ou um tio; a diferença no consumo de analgésicos entre a mãe e o outro doador era sempre gritante.
A impressão que fica é que a mãe doadora considera a queixa de dor um ruído desnecessário, como se pudesse diminuir a grandeza do gesto. Se avaliássemos a recuperação dessas mulheres apenas pelos seus relatos de dor, seríamos levados ao erro científico de concluir que abrir o tórax é um procedimento indolor.
Há alguns anos, vivi a síntese definitiva dessa força. Ela era a segunda doadora de um transplante sequencial. Enquanto o primeiro lobo era implantado, ela aguardava a sua vez de ser levada à sala de cirurgia, carregando a ansiedade de quem entrega o próprio fôlego para salvar a cria.
Aprendi que existe uma variável capaz de desintegrar qualquer estatística de dor: o amor de mãe.
J.J. CAMARGO
Quando fui vê-la na sala de recuperação, ela mal despertava da anestesia. Antes mesmo de abrir totalmente os olhos, lançou a pergunta que define a maternidade:
— Como está meu filhinho?
Assegurei que tudo correra bem. Só então ela se permitiu perguntar por si mesma. Ao ouvir que estava ótima, veio a provocação que atropelou qualquer protocolo de terapia intensiva:
— Doutor, eu posso me sentar?
— Pode — respondi, cauteloso.
— Mas eu posso me sentar numa cadeira?
— Sim, mas por quê?
Nesse momento, com uma lógica que a medicina nem sonha, ela deu o xeque-mate:
— Mas se eu posso me sentar numa cadeira, nada impede que essa cadeira tenha rodas e eu possa ir ver o meu amadinho!
Havia tanta força naquele pedido que ninguém se arriscou a contestá-la. Assim, uma hora depois de ter saído de uma grande operação lá ia ela. Entre drenos, frascos e soros, atravessou o corredor da Unidade de Terapia guiada por uma urgência que nada neutralizaria. Vê-la debruçada sobre o leito do filhote, beijando a palma daquela mãozinha de criança, foi uma das cenas mais emocionantes da minha longa vida cirúrgica.
Ali, no silêncio da UTI, entendi que amor de mãe se pode sentir, mas não explicar. Para aquela mãe, a brecha no peito não era uma ferida; era apenas a porta aberta por onde o seu coração passou no desespero de buscar o filho de volta para a vida.



