
"Generosidade não é sobre dar o que temos em excesso, é sobre dar o que nos falta." (Edna Frigato)
A doença desconcerta sempre, mas o dano muda de cenário e repertório nos extremos da vida. Estas duas histórias ocorreram no mesmo hospital, em épocas diferentes.
Na primeira delas, uma menininha de nove anos chorava virada para a parede. Tentei animá-la, dizendo que estava tudo bem, e que logo logo ela teria alta do hospital, mas o choro continuava. Quando quis saber o que acontecera, ouvi uma justificativa desconcertante: "A doutora Daniela, a única médica que aquece o estetoscópio para me examinar, vai sair de férias".
Na segunda, um velhinho anunciou uma greve de fome original: comida do hospital nunca mais. Quando eu quis saber se a comida era assim tão ruim, ele se justificou, quase pedindo desculpas como se eu fosse o cozinheiro, e então, sem querer, me derrubou: "Não é nada disso, doutor, a comida até é boa, mas se eu disser que só como o que vier de casa alguém vai ter que trazê-la, e eu poderei abraçar um dos meus!".
Na velhice, o inconformismo não é contra a biologia que falha, mas contra a autonomia que se esvai. A doença, para ele, não é o que dói no corpo, é o que afasta as pessoas. O prato de sopa intocado era, na verdade, um pedido de socorro contra o desespero da solidão.
Duas lições estavam postas, à espera de que os jovens médicos as acolhessem: a valorização do cuidado, que gera gratidão e se alimenta de pequenos detalhes, e o exercício de presença, que se contrapõe ao abandono.
O prato de sopa intocado era um pedido de socorro contra a solidão.
J.J. CAMARGO
Para a criança, a doença é de uma perplexidade absoluta, e o metal frio na sua pele delicada foi o estímulo para fugir desse lugar hostil. Ela nunca entenderia um cuidado que dispensasse calor. É certo que não temia a doença que nem entendia, ela temia o resfriamento do afeto porque, naquela idade, a cura deve começar pela temperatura do toque.
Enquanto isso, o velhinho não estava rejeitando o tempero do hospital, estava sim tentando subornar o destino para ganhar um afeto. O inconformismo com a doença ali transformou-se em estratégia. A comida era apenas o pretexto para amenizar a solidão, contando que, com sorte, a marmita traria o cheiro de casa e o calor de gente.
Cada um usava, no limite do sofrimento, os recursos que sabiam tímidos na busca de um afago que não constava da prescrição médica, completamente alheia a essas sutilezas do cuidado.
Enquanto aquele pingo de gente buscava no estetoscópio mais do que a frieza da ausculta, o velhinho barganhava o próprio sustento para garantir um abraço.
No fundo, o hospital era apenas o cenário circunstancial, e ali ambos tentavam desesperadamente o mesmo milagre: transformar o isolamento da doença em um pacto silencioso em que a preocupação com a generosidade não parecesse uma bobagem.




