
"Se você sente dor, você está vivo. Se você sente a dor dos outros, você é um ser humano." (Tolstói)
Conheci o Jovelino com 69 anos. Estava assintomático, mas durante um check-up de seguimento pós-operatório tardio de um tumor de bexiga teve o diagnóstico de uma lesão entre os pulmões (mediastino) que não existia quando foi operado, e agora tinha 4,5 cm de diâmetro. Indicada a ressecção por vídeo, ele quis saber se essa lesão tinha relação com o tumor operado há três anos. Disse que não, que muito provavelmente se tratava de um tumor primário do mediastino, que certamente ia continuar crescendo.
Ele pediu uns dias para pensar e desapareceu. Dois anos mais tarde, consultou outro colega que reiterou a necessidade de cirurgia: um tumor então tinha 6 cm. Outra vez, vacilou. Depois de mais seis anos, nos reencontramos: ele decidira pela cirurgia porque agora tinha sintomas explicáveis por uma lesão de 15 cm que comprimia vasos, traqueia e esôfago. Os exames concluíram que a lesão era inoperável, e objetivamente a partir daquele ponto toda a terapia estava voltada para a paliação.
Esta é uma das encruzilhadas mais dolorosas da ética e da prática médica: o momento em que a autonomia do paciente, exercida na plenitude ao longo de anos, deságua em um cenário de irreversibilidade.
O primeiro e enorme exercício de sensibilidade é conter-se no impulso de lembrar ao paciente que este desfecho irremediável foi culpa dele. A maioria dos médicos sucumbe à tentação de dar uma resposta exemplar do quanto contrariar a indicação de quem sabe, por quem não entende do assunto, só pode mesmo terminar em tragédia.
Sempre será difícil para o médico inexperiente entender que lhe cabe anunciar tudo o que ciência ensina sobre o destino das doenças, reservando ao portador, completamente consciente, decidir o que mais lhe convém naquele momento da sua vida.
Médico tem de estar presente mesmo na derrota técnica.
J.J. CAMARGO
A tendência natural do médico é apontar a culpa inevitável quando olhamos para o passado com os olhos do presente, esquecendo que todos temos projetos e prioridades intransferíveis e, mais importante, impermeáveis à opinião alheia.
Em vez de ver a recusa como uma "escolha errada", pode-se interpretá-la como a prioridade existencial daquela pessoa durante aqueles oito anos. E respeitar a autonomia significa ver a inoperabilidade atual não como um castigo pela desobediência, mas como desdobramento natural de um caminho que ele trilhou conscientemente.
Se focarmos no futuro, sempre poderemos ajudar, e a posição mais generosa nesta altura seria: "Naquelas circunstâncias, o senhor tomou a decisão que lhe pareceu mais conveniente. Agora, nosso desafio é outro, e eu continuo aqui". Isso é a disponibilidade médica integral, posta à prova: estar presente quando o cenário é de derrota técnica.
Contrariando o que aprendemos na escola, a verdadeira disponibilidade não se mede apenas pela busca da cura mas pela disposição, mesmo a contragosto, de acompanhar o paciente até onde a cura já não se encontra, sem relembrar a cada passo o quanto podia ter sido diferente.
Ao não culpabilizá-lo, permitiremos que ele viva o tempo que lhe resta sem o fardo adicional do remorso, que essa é uma dor que nenhum analgésico alivia.





