
"A simplicidade é o último degrau da sabedoria." (Khalil Gibran)
Há uma gramática própria na simplicidade. Enquanto o mundo sofisticado muitas vezes economiza no "obrigado", a humildade não conhece o conta-gotas. Recentemente, ao ver uma família humilde levar para casa o seu patriarca, feliz da vida com seu pulmão novinho em folha, fui transportado para o início da nossa jornada, quando operamos o quarto paciente do programa e nem imaginávamos que emoções sentiríamos 800 transplantes depois.
Naquela época, a insegurança era nossa sombra. O paciente tinha alterações cardíacas que nos desafiavam e a nossa relutância em operá-lo era evidente. Depois de um ano, quando finalmente o transplantamos, o pós-operatório foi tão inesperadamente liso e descomplicado que, no dia da alta, duas semanas depois, ele confessou com seu sotaque de gringo um desapontamento curioso: "Acho que vocês gostam de fazer uma ceninha com esse tal de transplante, que afinal é uma coisa simples!".
Mal sabia ele que sua facilidade biológica era o maior prêmio para a nossa angústia técnica. Ele partiu sorridente, abraçado na Marieta, e deixou uma lição: a insegurança do médico é captada instantaneamente pelo paciente, que na ansiedade face ao desconhecido, é puro instinto. No seu comentário, ele estava "se vingando" do sofrimento que lhe impusemos por não conseguirmos disfarçar nosso medo de principiantes.
Seis meses depois, a caminho da minha cidade para a virada do Ano-Novo, fui visitá-lo. Naquela tarde quente de verão na Serra, sua casa humilde na beira da estrada era palco de uma comemoração ruidosa. Vizinhos e amigos bebiam cerveja, festejando em algazarra a volta triunfante do "compadre" ao convívio dos amigos.
Naquela beira de estrada, uma garrafa vazia de cerveja virou relíquia.
J.J. CAMARGO
No meio do ruído, típico da comemoração à italiana, encontrei-o num cantinho, quieto. Observava a própria festa segurando um prudente copo de guaraná, com o temor de quem não sabia se a ciência lhe permitia o brinde. Percebi ali que a minha presença não era apenas a do médico, mas a do avalista da sua vida resgatada. Convidei-o, então, para compartilhar uma cerveja. Nunca esqueci o brilho daquele olhar.
Ao terminarmos, ele entregou a garrafa vazia à esposa com uma ordem que nenhum título acadêmico poderia me outorgar: "Marieta, me guarda bem essa garrafa, porque dessa o homem bebeu!".
Naquele instante, a rudeza se transformou em liturgia. Não tendo palavras requintadas para elogiar a equipe, ele sacralizou o objeto. Fatos assim mais me convencem que as pessoas simples conservam, invejavelmente, a pureza original. Como nunca precisaram exercitar a hipocrisia do convívio social, essa ginástica emocional diária de aparentar o que não se é para ser aceito, eles se mantêm preservados na autenticidade.
O homem de quem ele falava era apenas um ser humano que, estendendo a mão, lhe deu a permissão final para que ele voltasse a ser um deles. No mundo das aparências, a gratidão é muitas vezes uma figura abstrata; na beira daquela estrada, foi uma epifania, capaz de transformar uma garrafa vazia em relíquia.
Saí dali com a curiosa sensação de que, no fundo, o transplante não tinha sido apenas nele. Algo em mim também tinha sido trocado por um pedaço de humanidade, mais maduro, mais humilde e, acima de tudo, mais agradecido. Senti vontade de chorar.





