
"As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo." (Rubem Alves)
Que os extremos da vida se assemelham em dependências, implicâncias e preferências todos estão de acordo, ou é melhor que estejam, para os propósitos desta crônica.
Depois de um tempo que parece infindável, com os pirralhos enfarados pela falta de autonomia da infância, finalmente se festeja a época da livre iniciativa, quando estão biologicamente liberados para as suas próprias bobagens, que os pais tantas vezes se constrangem de repreender, porque perceberam que rebentos projetados para serem protótipos de originalidade se transformaram em meros plagiadores.
As gerações subsequentes revelam atitudes e comportamentos que expressam formas diferentes de encarar valores e conceitos, e os mais velhos chateiam repetindo o quanto no tempo deles as coisas eram diferentes, só porque eram. Como se fosse possível retroceder.
E então chega o momento em que o desconforto se transfere inteiro para a geração intermediária, que descobriu o quanto se tornou difícil dialogar com uma juventude displicente e irresponsável, e no outro extremo, convenhamos, ficou muito cansativo o convívio com essa geração retrógrada, que só chamam de terceira idade porque, por caridade pura, não assumem que é a última.
Avós cuidadores preservam a cognição por mais tempo, dizem pesquisas.
J.J. CAMARGO
Para a felicidade de dois terços da família, se percebe que a melhor maneira de se manterem mutuamente toleráveis é por meio da aproximação dos extremos. E então a vida, generosa como ela só, implanta esse oásis de puro afeto que caracteriza a relação de avós claramente antiquados com netos lindamente irresponsáveis.
Para reiterar o quanto a natureza é prodigiosa, estudos recentes indicam que uma maior frequência de interação e cuidado com os netos está associada a uma preservação da cognição, com declínio cognitivo mais lento nos avós.
A alegria contagiante, o riso irreverente, a espontaneidade do afago, o deboche bem-humorado, a parceria em brincadeiras que os velhos já nem lembravam, enfim, tudo o que aproxime gerações tão diferentes fará com que os velhos se queixem menos da velhice.
As primeiras pesquisas mostraram que avós cuidadores preservam a cognição por mais tempo do que os velhos que agradecem não terem netos para incomodar.
Quando o mesmo estudo comparou os avós cuidadores com as avós cuidadoras, ficou evidente que apenas as avós cuidadoras mostraram menor declínio cognitivo ao longo do tempo. Atribui-se esta diferença ao passar mais tempo de lazer com os netos, ajudá-los com a lição de casa e participarem de uma variedade maior de atividades (juro que nem me passou pela cabeça considerá-las mais desocupadas!).
Como sou competitivo, me insurgi contra esta discriminação e tratei de adquirir habilidades para brincar mais com meus netos. No terceiro dia de tentativas bizarras de compartilhar videogames, ouvi do meu neto menor, então com seis anos, uma pergunta demolidora: "Vô, você sempre foi ruim, ou só ficou assim depois de velhinho?".
Uma dessas histórias que contamos com certo orgulho, mas intimamente torcendo que essa irreverência ungida de sinceridade infantil não tenha ultrapassado os limites da virtude.





