
"O amor pode não ter ciúme. A dor do amor pode ser disfarçada." (Cazuza)
Alterei o nome dos personagens para proteger a confidencialidade, mas a história é verdadeira, tão verdadeira que fiquei um pouco chocado com o desfecho, por ter sido testemunha de parte daquela relação, justamente de uma época que me deixou com saudades de mim mesmo, do tempo em que eu tive a idade deles.
O Márcio e a Melissa, ex-alunos, lindos os dois, eram colegas de turma, e qualquer pessoa que tivesse amado uma vez na vida reconheceria no convívio deles tanto carinho, cumplicidade e dependência mútua que apostaria no amor eterno, essa coisa que tanto me forçaram a ouvir que está ultrapassada, e que só de digitar já me pareceu estranha.
O certo é que encontrar o Márcio, uns 10 anos depois, não contribuiu em nada para a minha crença em amor definitivo.
— E aí, cara, como vai a Melissa, vocês já têm filhos?
— Que nada, professor! A gente se separou logo depois da residência, porque eu queria viajar e ela só queria se casar. E acabou se casando com o Eduardo, meu melhor amigo na faculdade. Lembra dele? Um irmão para mim!
Meio embasbacado, só me ocorreu perguntar:
— E eles estão bem?
— Muito bem e estão felizes, com três filhos. Continuamos convivendo muito, até sou padrinho do mais velho!
A vontade de contar essa história talvez esteja na necessidade de compartilhá-la com pessoas antiquadas como eu.
J.J. CAMARGO
Sentindo-me um jurássico, e só querendo voltar para a minha caverna afetiva, despedimo-nos com uma cordialidade unilateral comovedora. Ele me disse:
— Cuide-se, professor, muito bom lhe ver, a Melissa lhe adorava. Vou contar a eles que lhe encontrei!
— Obrigado, Márcio, faça isso.
Para uma despedida, depois de tanto tempo, acho que foi pouco, mas não consegui dizer mais.
Passados dois meses dessa conversa, de vez em quando ainda lembro do encanto que aquele namoro remoto irradiava e da leveza da relação descontraída daquele trio de fraternidade irretocável. Percebi que, de tanto acreditar na permanência daquele romance, me senti emocionalmente traído.
Convencido de que temos que tentar entender antes de criticar a geração Z, me socorri dos conceitos de mundo líquido de Bauman, que reconheceu a superficialidade das relações modernas, em que ninguém aposta no definitivo e, querendo se prevenir de qualquer possibilidade de perda, se refugia no vazio do efêmero, sem interesse em descobrir o que perdeu.
A vontade de contar essa história talvez esteja na necessidade de compartilhá-la com pessoas antiquadas como eu, esses eventuais remanescentes de um tempo em que amor e ciúme eram interdependentes, não porque houvesse necessidade de posse, mas pela certeza intuitiva de que nunca mais encontraria alguém cuja simples visão lhe provocasse aquela taquicardia.

