
"Para quem navega sem destino, nenhum vento é favorável." (Sêneca)
Considerar que todos os graduandos em Medicina serão de fato médicos é um exercício de ingenuidade ou tolice. Quinhentas faculdades de Medicina num país imenso, em tamanho e em desigualdade, representam as mais variadas matrizes formadoras de profissionais da saúde. Neste contexto, uniformidade de resultados é impossível. E atribuir desfechos previsíveis ao destino é fugir da responsabilidade.
Em um primeiro grupo, estarão os egressos de faculdades improvisadas, sem estrutura para oferecer as condições mínimas de um treinamento que previna ao menos as aberrações transformadas em demandas judiciais que superlotam os conselhos regionais de medicina. Esses jovens médicos, desprovidos de ensinamento supervisionado, viverão dias e noites com o grande sofrimento de quem descobre, na solidão, o tamanho do compromisso de cuidar da vida de alguém, ainda mais tendo consciência da indisfarçável insegurança.
Os de boa índole, sempre majoritários, serão duplamente punidos, pelo medo de errar e pelo entendimento decepcionante e tardio do quanto a luta pela sobrevivência é um péssimo conselheiro ético em qualquer profissão.
No segundo grupo, estarão os privilegiados, que conseguiram acesso às melhores escolas e tiveram uma formação técnica com todos os modernos recursos pedagógicos. E mais do que isso, o acesso à tecnologia de ponta, atualizada a cada ano, seguindo a vertiginosa aceleração do conhecimento. O acompanhamento com professores diferenciados e comprometidos acrescentou ao conhecimento, disponível através de todas as formas de veiculação, a experiência acumulada sob o rótulo de sabedoria de quem se dedicou ao magistério movido pelo prazer de ensinar.
Apesar de eventuais limitações, inerentes a quem trabalha com uma ciência biológica, qualquer sociedade se sentirá felizarda de contar com médicos deste grupo, capazes de oferecer atendimento técnico competente e rigoroso.
A presença de um terceiro grupo é desafiadora e estimulante, e representa uma derivação do segundo grupo, porque também não abre mão do máximo de tecnologia, mas não considera que o máximo de tecnologia é o máximo.
Este pelotão é formado por uns tipos inquietos, que estudam muito, odeiam que alguém lhes traga novidades que podiam ter descoberto por eles mesmos e são insaciáveis na obsessão de fazer melhor e antes o que se acreditava inviável para uma realidade conformada em ser pobre.
Sempre quiseram saber tudo de todas as doenças, mas a partir de um determinado ponto do caminho se deram conta de que elas se repetem e são monótonas e, muitas vezes, chatas. Esta descoberta foi fortalecida diariamente, pela percepção de que o maior fascínio em cuidar do outro é o quanto o outro, no seu jeito original de ser, surpreende, comove e ensina, em cada encontro.
O convívio com este material humano, rico, espontâneo e renovável contém a essência de ser médico. Que na sua plenitude é inexcedível no que a relação humana pode oferecer em afeto, generosidade e gratidão.




