
"Pode-se confiar nas pessoas más: elas nunca mudarão." (William Faulkner)
Os outros animais matam para sobreviver, não como diversão. Não há, na matança, o prazer de matar. A maldade, no seu estado puro, é um atributo da espécie humana que tem surtos periódicos de superação. Como a de grupos populacionais na brutalidade inominável das guerras, mas em lugares remotos, de modo que a geografia caridosa se encarrega de atenuar o impacto da descoberta chocante do quanto os chamados humanos são afeitos à crueldade.
Um dano emocional maior, provocando pasmo, revolta e indignação, se multiplica quando a pequena comunidade é estremecida pela noção assustadora de que os criminosos moram na mesma cidade, frequentam os mesmos restaurantes, já se ofereceram sorridentes para colocar a mala no bagageiro do avião e, mais surpreendente ainda, até já tenham cedido a vaga no estacionamento, com essa generosidade juvenil atribuída à percepção de que os velhinhos precisam ser amparados. Um encantador exercício de falsa bondade.
Talvez porque haja a convicção fundamentada de que nascemos bons, mais choca quando a maldade é atribuída a jovens que nem tiveram tempo de piorar. E se isso ocorreu, alguma coisa muito grave e precoce deve ter provocado essa distorção comportamental. E o pânico se dissemina quando se percebe que eles dividem sala de aula, merenda escolar e balada nos fins de semana com nossos filhos e, mais assustador ainda, com nossos netos.
A descrição das atrocidades cometidas contra um cão de rua é reflexo de como foram educados para chegar a esse extremo de crueldade.
J.J. CAMARGO
Os psicopatas adultos certamente não foram adolescentes carinhosos, mas não existe nenhuma dúvida de que a maldade raiz pode ser incrementada pelo ambiente familiar de superproteção, pela cultura de impunidade e pela ausência primária de empatia.
A descrição das atrocidades cometidas contra um cão de rua, ainda mais vulnerável porque estava acostumado com carinho da comunidade que o alimentava e protegia, é mais do que uma covardia coletiva de adolescentes estúpidos: é reflexo de como foram educados para chegar a esse extremo de crueldade.
E uma certeza: nenhum deles viveu o encanto de ter na infância um cachorrinho para cuidar. Ninguém que já conviveu com a alegria espontânea de um bichinho carente de afeto ao ser chamado pelo nome seria capaz de assistir indiferente à chacina de um cão velho, já sem condições de se defender, que na boa-fé dos inocentes atendeu, abanando o rabo de alegria, ao chamado para a morte.
Nada revolta mais do que a crueldade, gratuita e covarde, contra os indefesos. E não se iludam: a maldade não seleciona suas vítimas, desde que naturalmente sejam incapazes de revidar. Uma condição que diverte a covardia.





