
"As pessoas adoecem pela falta de relações afetivas sólidas. Se lhes dermos neutralidade e impessoalidade, daremos o que lhes causou a doença" (Hélio Pellegrino)
O ideal seria que ao final de uma consulta médica, o paciente saísse, se não feliz, pelo menos aliviado do seu sofrimento. Provavelmente por conta dessa convicção minha, a consulta demorada com o Martinho, foi estranha, porque saí menos confortável do que ele pareceu estar.
Ele é um paciente idoso que conheci, e me encantei, na década de 90, quando nem ele nem eu éramos idosos. Um queridão, inteligente, sensível e bem-humorado. Um desses tipos fáceis de se gostar.
Quando terminou a consulta e nos despedimos, abraçados com velhos parceiros, pedi permissão para contar do que eu tinha aprendido com ele a respeito de tolerância, esse sentimento tão ambíguo, que é considerado precioso, nas relações familiares, mas detestável na relação médico-paciente, onde usualmente é percebido, pela parte frágil do confronto, como desconsideração, esta sim reconhecida unanimemente como o mais eficiente instrumento de aversão entre duas pessoas, mormente quando uma delas está em desvantagem emocional.
O Martinho aceitou que eu comentasse o nosso encontro, desde que ele pudesse escolher esse codinome (horroroso na opinião dele), e que lhe atribuísse a função de funcionário de cartório, “uma profissão que ninguém imagina o quanto eu odeio” de modo que com isso a sua identidade estivesse definitivamente protegida.
Acabamos rindo na despedida, mas o início da nossa conversa, não teve nada de divertido. "O problema, meu doutor, é que eu só percebi ao ficar velho, que continuava pobre. E, como o Sr. deve saber, para os velhos, por uma redundância cruel, criaram os convênios pobres. O meu plano de saúde, por exemplo, tem apenas dois cardiologistas. Curioso que sou, já consultei os dois e descobri que são almas gêmeas. Na pressa e na pouca paciência, ainda que um deles, o meu preferido, disfarce melhor o desprazer de estar ali. Em resumo, ele me tolera mais que o seu colega. E eu, educado que sou, retribuo!”
A relação médico-paciente, para ele, e tantos como ele, não é um encontro que devia exigir o cuidado integral do outro, é antes uma transação de tolerâncias mútuas, reafirmando a insignificância daquela vida composta por anos de anonimato, boletos implacáveis e domingos idênticos, onde a doença vem sempre vestida de tragédia, sem que ninguém lhe dê o menor valor, quando devia ser entendida, e tratada, como um momento inesquecível.
Neste contexto, nada contrasta mais do que a atitude do médico indiferente, blindado por anos de formalismo, de olho fixo no monitor, operando o teclado com a precisão de um datilógrafo de repartição pública.
No mundo ideal, se o médico percebesse que aquele é o momento mais rico da vida miserável daquele pobre homem, ele devia parar tudo, porque não se pode desperdiçar o humanismo emergente daquela situação. Mas, no mundo real, há uma fila lá fora que não permite épicos. E então encerra-se a consulta e a receita, vazia de afeto, é entregue como um alvará de soltura.
O paciente levanta-se e sai, sem um abraço, ou ao menos um olhar que dissesse "eu vi a sua tragédia".
Uma crueldade silenciosa, onde dois seres humanos se cruzaram, mas pela neutralidade de quem não se importa, não se viram.





