
É quimérico imaginar que possa existir um modelo infalível para dar ao jovem a certeza de que a escolha profissional, orientada por testes vocacionais, resultará em realização pessoal, porque infelizmente essas orientações são baseadas em critérios subjetivos.
E então a certeza se esvai porquanto somos diferentes em sonhos, exigências e expectativas. O fato de que as mesmas conquistas que empolgam a uns enfaram a outros explica a insegurança que ronda as cabecinhas imaturas dos nossos jovens, especialmente nesta época do ano, com o fantasma do vestibular solto por aí.
Não vale a argumentação de que o jovem deste século se mostra menos interessado, mais imediatista e menos comprometido. Mesmo que essa ambição de conquista neles pareça menos evidente, na essência somos iguais.
De geração em geração, a busca de sucesso e reconhecimento nunca se modificou porque, embora o mundo mude tecnológica e socialmente, o desejo humano de poder, riqueza ou conquista é uma constante universal.
Por conta da natureza humana imutável, os nossos netos terão, com estratégias adequadas a cada um, os mesmos impulsos que tivemos e teimamos em conservar, porque a essência do desejo não evolui nem diminui. O que não se pode é abdicar da felicidade, que depende sim de coragem e determinação, mas sem jamais renunciar a uma dose saudável de utopia.
Como a felicidade dos pais depende, desde sempre, do sucesso da prole, se justifica a ansiedade de vê-los garimpando nas atitudes das crias ansiosas aqueles indícios que signifiquem "agora sim encontramos o caminho!" e tenham que se contentar com um sinal tão sutil quanto é o brilho no olho. Talvez porque tenham aprendido que a falta desse brilho é o fim da esperança.
O desfecho é previsível: teremos um profissional medíocre, sem ambição ou propósito.
J.J. CAMARGO
Entendido assim, nada é mais injusto que o tempo desperdiçado na busca de um ideal que não se realize, e esse é o risco de escolha equivocada na encruzilhada mais importante da vida.
A construção do infortúnio pessoal começa quando, por falta de orientação, imaturidade ou fantasia, se escolheu a profissão errada e, seguindo a tendencia da maioria, não se teve a decisiva coragem de admitir que errou o caminho para assumir o equívoco e começar de novo.
Na tentativa desesperada de se justificar na inércia, a frase mais usada pela família como pretensamente estimulante é: "Não jogue fora o que você conseguiu até aqui com tanto esforço. Continue, você vai acabar se acostumando!"
Apoiado na ilusão de que vocação possa ser despertada com paciência e oração, e no afã de valorizar as pequenas conquistas do passado recente, se joga fora o futuro, longo e monótono, tornado insuportável pela escolha infeliz.
Quem tem experiência com magistério médico certamente se lembrará de acadêmicos que se arrastaram nas cadeiras básicas e então, inconsoláveis e deprimidos, chegaram às disciplinas clínicas, em que há a intransferível necessidade de interagir com desconhecidos, carentes de todos os afetos, que aqueles equivocados nunca tiveram para si e muito menos terão para compartilhar.
O desfecho é previsível: teremos um profissional medíocre, sem ambição ou propósito, falando mal da profissão que nunca amou, e que envelhecerá sem descobrir o quanto ela pode retribuir de felicidade aos seus amantes devotados e fiéis.






