
O professor Antônio Egídio Nardi, recém-eleito presidente da Academia Nacional de Medicina (2026-2027), publicou recentemente um excelente artigo no site The Conversation com o título "Enamed: um espelho incômodo da formação médica no Brasil".
Uma revisão criteriosa e madura de uma situação absurda, marcada pela proliferação maciça de faculdades de Medicina, com indisfarçável interesse comercial, para produzir médicos a granel e que serão os cuidadores dos nossos adoecidos no futuro imediato.
O Enamed, uma iniciativa conjunta dos Ministérios da Saúde e da Educação, usou critérios reconhecidos de avaliação de proficiência e mediu a qualificação técnica dos alunos egressos de 304 faculdades (até a véspera da escrita deste texto, eram 497).
Usando uma escala crescente de 1 a 5, cerca de 30% dos alunos avaliados eram oriundos de escolas com as notas mais baixas (1 ou 2), a maioria delas criadas nos últimos anos, com evidências grosseiras de improvisação.
Não por acaso, no extremo oposto estavam as escolas reconhecidas, a maioria federais, com seleção rigorosa dos aspirantes, corpo docente qualificado e comprometido, vinculadas a hospitais respeitáveis, com treinamento supervisionado e diligente e avaliações periódicas do desempenho, técnico e humanístico, dos seus alunos.
O professor Nardi enfatizou que essa disparidade não significa que todas as federais sejam ótimas nem que todas privadas sejam deficientes, mas, na média, o modelo institucional, sem dúvida, faz a diferença.
Se fugirmos da hipocrisia populista e tratarmos de selecionar os melhores médicos, buscaremos aqueles que seriam naturalmente escolhidos por competência, disponibilidade e humanismo.
E não haverá nenhuma surpresa em descobrir que a maioria absoluta dos selecionados tenha cursado faculdades sérias e responsáveis, que têm a noção da importância que seus egressos terão para cada paciente e cada família da comunidade que frequentem.
Enfim, atores aptos a oferecer a medicina que todos almejam para si e para seus dependentes, inclusive os irresponsáveis que não se constrangem de defender que, para os desvalidos, qualquer médico serve, até os arremedos de importação.
Infelizmente, o problema não se encerra por aí: se multiplica pela má-fé dos que, conscientes do fascínio que ter um filho médico pode exercer sobre famílias mais humildes, não têm nenhum constrangimento de explorar essa fantasia com mensalidades extorsivas.
E assim estamos contemplando, com incompreensível passividade, uma dupla iniquidade: a do jovem médico a caminho de descobrir que o sonho de enriquecer era ilusório, e a de uma família modesta atormentada por uma dívida impagável.



