
O Pavilhão Pereira Filho, da Santa Casa de Porto Alegre, foi um de quatro novos hospitais brasileiros destinados ao tratamento de tuberculose, no início dos anos 1960. Com recursos trazidos do Ministério da Saúde pelo seu fundador, o professor José Fernando Carneiro, cumpriu essa função durante cerca de uma década, a partir da qual o tratamento da tuberculose se tornou progressivamente ambulatorial, reservando-se a internação para casos especiais.
Tendo recrutado, na sua origem, profissionais de qualidade superior, liderados pelos professores Nelson Porto, Bruno Palombini e Ivan Faria Correa, foi espontânea a migração para a condição de centro de tratamento mais abrangente das doenças do tórax. A permanente vinculação com duas das mais antigas escolas médicas do RS abriu caminho para o reconhecimento como instituição formadora de pneumologistas (cerca de 260) e cirurgiões torácicos (135), espalhados por 19 Estados brasileiros e sete países sul-americanos, além de Estados Unidos, Canadá e Inglaterra.
O hospital sempre foi chamado carinhosamente pelos seus egressos simplesmente como Pavilhão, uma grife reconhecida em qualquer lugar onde se tenha alguma intimidade com doenças do tórax. Gerida por pessoas de vontade inquebrantável, soube ser parceiro indefectível em todas as crises que a Santa Casa, como entidade mãe, enfrentou. Certamente um momento muito impactante para demarcar o seu rumo e futuro foi ter acolhido o primeiro transplante de pulmão da América Latina, em 1989, quando o Pavilhão tinha apenas 24 anos.
Quando tínhamos feito três transplantes, recebemos a visita de um renomado professor de pneumologia de Buenos Aires. Uma tarde, ouvi fortuitamente uma conversa dele com um dos seus assistentes: "Não venhas para cá pensando encontrar tecnologia de ponta. Aqui não tem mais do que uns tipos estranhos, muito obstinados".
Constrangido pela minha escuta irregular, e me sentindo o próprio bicho estranho, não pude dizer da minha convicção: o que qualifica um serviço são as pessoas determinadas a dar de si o melhor que possuam. Feliz de ter descoberto sozinho, guardei para mim esse segredo.
Os 60 anos da história gloriosa desse hospital, que festejamos na semana passada, foi um encontro cheio de emoção pelo que fizemos e muita saudade e gratidão pelos mestres que permitiram que fizéssemos e já não estão mais aqui. Numa das comemorações, recordei que no final dos anos 1970, no auge da pobreza institucional, recebi um grande empresário chileno, que tinha vindo a Porto Alegre a negócios e fora surpreendido por um sangramento pulmonar assustador.
Amigos médicos de Santiago recomendaram que nos procurasse na Santa Casa. Ele foi operado, na mesma noite, de uma sequela hemorrágica de tuberculose. Na despedida, cinco dias depois, muito sério, ele confessou que naquela noite em que foi internado, assustado pelo sangramento, tinha pensado: "Por que um grupo médico já tão conceituado trabalha num hospital tão miserável? Mas hoje, passados cinco dias eu já não tenho vontade de perguntar mais nada, porque me dei conta que aqui tem uma coisa boa, e o que eu quero é pedir que você faça o possível para que a sua coisa boa nunca vá embora!".
Esses anos todos fortaleceram em mim a convicção de que aquela coisa boa que ele percebeu era fruto do esforço continuado de um grupo que sempre acreditou que o tamanho do que fazemos se mede pela coragem de enfrentar desafios, esses que os fracos atribuem ao destino. Que os da próxima geração tomem para si a responsabilidade de manter viva essa chama, na contagem regressiva dos próximos 60 anos, que começa agora. E não se distraiam, porque nós, os protagonistas da primeira metade, de algum lugar estaremos vigiando, cheios de orgulho das sementes que plantamos.






