
Cria de São Sepé, uma das mais gaúchas cidades do Rio Grande do Sul, Daniel Tonetto se tornou um escritor que poderia ser chamado de glocal. Aborda em seus livros assuntos cada vez mais universais, sem descuidar do seu rincão, o miolo do território rio-grandense, com suas peculiaridades culturais e miscelânea étnica. É o que faz mais uma vez em seu nono romance, A Cor que Nos Separa - A Origem, que será lançado dia 11 em Santa Maria, onde o autor está radicado há décadas. É o segundo volume de uma narrativa que aborda um dos piores crimes da humanidade, o racismo.
Crime, aliás, é a especialidade de Daniel Tonetto, advogado com mais de 300 júris no currículo - seja como defensor de réus, seja como acusador (sim, poucas pessoas sabem, mas muitos julgamentos contam com acusação feita por representante contratado por familiares de vítimas). Ele é também professor de Direito.
Natural que, na sua segunda especialidade, as letras, Tonetto enveredasse para o cotidiano dos tribunais, onde se move como um peixe na água. Nos seus sete primeiros romances abundam advogados inescrupulosos, policiais penais corruptos, bandidos sanguinários, criminosos de colarinho branco, infidelidades conjugais, amizades traídas, o melhor e o pior do ser humano.

No oitavo livro de ficção, intitulado A Cor que Nos Separa, Tonetto resolveu ser mais abrangente e abordou uma chaga moral, mais do que penal: o racismo. É a saga de três famílias, até o fictício ano de 2062. Uma de negros que vivenciaram a escravidão. A outra, de migrantes italianos. A terceira, dos gaúchos de origem portuguesa, donos de terras ou capatazes de fazendas.
A obra fala de preconceito, vilanias e, óbvio, crimes, mas também de afetos e valores éticos. Tonetto se dá bem na tentativa de construir um épico. O livro tem ritmo, ricas descrições etnográficas, humanismo.
Mas eis que surge a continuidade da saga e, arrisco dizer, este segundo volume de A Cor que Nos Separa (a Origem) consegue ser melhor que o primeiro. Isso porque, como o título indica, Tonetto foi atrás dos primórdios da história da escravidão negra no Brasil para construir essa sequência. O leitor é transportado para a Angola do século XIX, no porão de um navio negreiro rumo ao extremo sul do Brasil. Gente levando vida de gado, repleta de sofrimento e morte.
Um segundo navio permeia a trajetória deste romance étnico. É o que transporta colonos italianos que fogem da fome rumo ao Novo Mundo - no caso, a região central do Rio Grande do Sul, onde vão substituir a mão-de-obra africana. É outro relato de vidas sofridas e ilusões perdidas, trabalho exaustivo e exploração de brancos por brancos - mas nada que se compare à brutalidade reservada aos corpos negros.
Para fazer a imersão nos ambientes, Tonetto viajou a Gênova (Itália), de onde os migrantes embarcavam para o Brasil. E mantém contato com Angola, berço da maioria dos escravos remetidos ao território brasileiro e país que deve ser visitado pelo escritor no mês que vem (talvez para inspiração numa continuidade da obra). Publicado pela Avec Editora, A Cor que Nos Separa - A Origem será lançado na próxima terça-feira na Feira do Livro de Santa Maria, evento do qual Tonetto é o patrono deste ano e que começa nesta sexta-feira (7).





