
Dois fins de semana atrás nevou em Rolante, no Vale do Paranhana, quando eu estava lá. Tímida, ela caia em flocos e não se acumulava, mas era bonito de ver. Pois na última sexta-feira (17), esse mesmo município da encosta da serra registrou desagradáveis 36,7ºC, algo que seria mais apropriado num Senegal da vida. Pode isso?
Pode, infelizmente. Aconteceu algo parecido em Porto Alegre, que registrou 8 graus no início da semana e 33,8ºC quatro dias depois — justificando o jocoso apelido de Forno Alegre. Só que agora parece que o forno está permanentemente aceso, inclusive no inverno.
Óbvio que isso não tem como terminar bem e as chuvaradas estão aí para comprovar. Feito gatos escaldados pelas enchentes de 2023 e 2024, os gaúchos (inclusive eu) jamais voltaram a enxergar chuva de forma inofensiva. Cai uma gota em Uruguaiana e o pessoal corre a fechar janelas em Porto Alegre.
Cheias traumáticas estão entre os efeitos do El Niño, asseguram os meteorologistas: o aquecimento abrupto das águas do Oceano Pacífico, que provoca seca no norte do Brasil e enchentes no sul.
Acontece que o El Niño tem sido frequente. Talvez a repetição desse fenômeno tão daninho para os brasileiros seja mesmo consequência do efeito estufa. Trata-se da retenção do calor do Sol na Terra, que mantém o planeta aquecido. Cientistas de várias áreas asseguram que atividades humanas (como queima de combustíveis fósseis e desmatamento) liberam gases extras, intensificando essa camada e causando o aquecimento global, o que gera as mudanças climáticas atuais.
Faz sentido. E nós, gaúchos, situados numa fronteira climática, entre o calor que vem do Norte e o frio que vem da Patagônia, podemos estar pagando o pato dessa gangorra meteorológica. Tem como normalizar 150 mm de chuva em dois dias, ventos acima de 100 km/h, microexplosões e outros quetais? Quando era novo eu assistia a filmes sobre tornados e pensava: ainda bem que não temos isso no Brasil. Tínhamos, eu não sabia e agora eles acontecem com frequência cada vez mais assustadora.
Somos testemunhas oculares da história - só que uma história com final já conhecido e infeliz. Se, ao contrário dos sinais apocalípticos, isso tudo é normal, para esse trem que eu quero descer.



