
Participei de uma reunião do Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis (DPGV), da Polícia Civil gaúcha, nesta terça-feira (9). Foi com grata surpresa que os policiais presentes confirmaram uma estatística extremamente positiva: o Rio Grande do Sul teve 80 feminicídios no ano passado e todos os autores desses crimes hediondos foram presos — e quase todos continuam nessa condição. A exceção são aqueles que se suicidaram, o que é comum nesses episódios sangrentos. Desconheço outro indicador de delitos em que 100% dos responsáveis foram descobertos pelos agentes de segurança.
Algum leitor mais desconfiado pode pensar que é natural, já que a imensa maioria dos feminicídios é cometida por companheiros e ex-companheiros da vítima, gente plenamente identificável. Mas uma coisa é saber quem cometeu, outra é correr para capturar o autor. E policiais, tanto civis como militares, estão de parabéns pelo esforço concentrado que fazem para diminuir essa chaga que teima em atormentar o Rio Grande.
Na presença do Chefe de Polícia, delegado Heraldo Guerreiro, os policiais do DPGV, chefiados pelo delegado Juliano Ferreira, mostraram os principais procedimentos adotados pelas polícias — e que começam inclusive com ajuda da Brigada Militar e suas Patrulhas Maria da Penha, que atendem mulheres vítimas de violência doméstica. No âmbito da Polícia Civil, as inovações recentes passam pelo pedido de medida protetiva de urgência online (antes era preciso ir se expor numa delegacia), pelas equipes de Pronta Resposta (que convergem para o local do crime assim que o fato acontece) e pela criação do novo plantão 24 horas da 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Porto Alegre, com equipe multidisciplinar de atendimento criminal, psicológico e jurídico. A rede de delegacias especializadas, aliás, só aumenta.
Mesmo assim, os feminicídios estão em crescimento, no Rio Grande do Sul e no país. Por quê? A resposta é complexa, multifatorial. Ao contrário do crime organizado, a violência contra a mulher não acontece nas ruas, mas dentro dos lares — que, por lei, são, em tese, invioláveis. É no seio das famílias que o ódio muitas vezes substitui o amor. Difícil para um policial intervir, se não for chamado. E desafiador prevenir.
E como relutam as mulheres para dar queixa contra o companheiro! Compreensível. Tornar pública a violência doméstica significa romper uma estrutura, o casamento, que foi criada para ser sinônimo de abrigo. É difícil romper com um projeto de vida idealizado durante décadas. Há inclusive uma tendência dentro das famílias de minimizar as dores da mulher, de pedir que ela considere manter a união em prol dos filhos, mesmo quando os espancamentos são frequentes.
Tudo isso torna a missão policial, além de delicada, exaustiva. Até porque muitas vítimas tentam reatar com seus companheiros. É preciso muita paciência e tato para lidar com os vaivéns emocionais de quem sofre a violência. É necessário também que os homens, mais do que temer a lei, empreendam uma mudança cultural efetiva. Tudo isso leva tempo. Os policiais sabem disso e estão no caminho certo.




