
A Polícia Civil deve receber oficialmente, nos próximos dias, os laudos do Instituto-Geral de Perícias (IGP) sobre a reconstituição da morte do plantador de morangos Marcos Nörnberg, que levou pelo menos sete tiros disparados por PMs na madrugada de 15 de janeiro, em Pelotas. Os documentos serão fundamentais para esclarecer o episódio. Todos os relatos colhidos convergem para uma constatação: o agricultor foi confundido pelos policiais com bandido. A informação dos brigadianos, de que a residência da vítima seria o QG de uma quadrilha de ladrões de veículos, estava errada e embasada em relatos falhos feitos por ladrões de carros presos.
Um Inquérito Policial Militar feito pela Corregedoria-Geral da BM aponta uma cadeia de erros que levou à morte de Nörnberg, mas concluiu que não ocorreram crimes militares e, sim, falhas de procedimento dos 18 PMs que atuaram naquela madrugada trágica. Já a parte da morte em si é investigada pelo Departamento de Homicídios da Polícia Civil.
Os policiais civis trabalham com três hipóteses principais. Uma delas, alegada pelos advogados dos PMs, é que os brigadianos agiram em legítima defesa. Foram recebidos a tiros por Marcos Nörnberg (isso está comprovado), que não sabia se tratarem de policiais. Uma reação compreensível, pois o sítio dele já tinha sido assaltado anos antes. No revide, os policiais militares teriam usado a supremacia de força e matado o agricultor, que pensavam ser um bandido atirando contra eles.
Pesa contra essa hipótese o fato de o agricultor ter disparado no máximo três vezes e recebido uns 17 tiros de volta. O excesso de disparos dos PMs pode caracterizar homicídio com dolo eventual - ou seja, teriam reagido com força desproporcional e assumido o risco de matar alguém inocente (inclusive a mulher de Nörnberg estava junto com ele e não foi atingida por sorte). Uma outra possibilidade, homicídio doloso clássico, está praticamente descartada porque até agora não foram constatados indícios de que a morte de Nörnberg foi proposital. Perícias preliminares descartaram que ele tenha recebido "tiro de misericórdia", como se cogitou no início das investigações.
A terceira linha analisada, muito forte, é a de homicídio culposo: Nörnberg teria sido morto por acidente, ao ser confundido com bandido. Morte não intencional, mas pautada por diversos erros dos PMs na identificação da casa, na ignorância sobre a identidade dos ocupantes dela e no cerco ao local. Nesse caso, a competência de julgar seria da Justiça Militar.
O inquérito deve ser concluído nas próximas semanas, dependendo ainda da chegada de documentos formais do IGP.




