
Foi no seu clube de golfe particular na Flórida (EUA) que Donald Trump recebeu a nata dos seus aliados de direita no continente, no fim de semana. Chamado "Escudo das Américas", o encontro tem o objetivo declarado de combater com todos os meios, inclusive militares, o narcotráfico.
O não-declarado, mas que ficou claro, é que o grupo é uma frente antiesquerdista destinada a limar tudo que soe parecido com socialismo, social-democracia ou comunismo no quintal dos Estados Unidos. Estilo Cuba, que aliás foi anunciada como o próximo alvo pelo presidente norte-americano, a menos que o regime castrista (há 70 anos no poder) negocie para permanecer vivo. Trump, sem sutilezas, lembrou do sequestro do dirigente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro. Recado claro.
Estavam presentes estritamente os alinhados ao pensamento de Trump. Entre eles, Javier Milei (Argentina), Nayib Bukele (El Salvador) e Daniel Noboa (Equador). Não foram convidados líderes de centro-esquerda ou esquerda.
O que pode ocorrer esta semana, na sequência do encontro, é o anúncio da designação por parte dos EUA das facções criminosas brasileiras PCC e CV como grupos terroristas. Seria uma vitória do bolsonarismo e uma derrota para a diplomacia do governo Lula. Só que traficantes, ao contrário de terroristas, não têm ideologia. Perpassam todo o tecido social, de forma dissimulada, e por isso é mais difícil identificá-los.
Já vimos este filme. No início dos Anos 2000 os EUA criaram o Plano Colômbia, montaram seis bases militares naquele país e forneceram farto armamento. O objetivo anunciado era combater o narcotráfico na raiz. O não-anunciado (e que acabou se tornando o principal) era dizimar as guerrilhas de esquerda, como as Farc e o ELN. Estive lá na época e inclusive voei num helicóptero Blackhawk pilotado por norte-americanos, cuja esquadrilha matou vários guerrilheiros.
O poder das guerrilhas foi aniquilado das cidades colombianas, hoje restam a elas alguns bolsões rurais. Já a vitória sobre o narcotráfico, meta original, se revelou uma miragem. A Colômbia continua sendo a principal exportadora de cocaína no mundo. O que nos leva a pensar que talvez o problema das drogas não seja solucionado com uma ação militar pura.



