
A morte de Paulo José Chaves dos Santos com tiros disparados por PMs é mais um episódio em que a Brigada Militar é chamada a intervir porque uma pessoa está em surto e acaba matando o transtornado. O cidadão, morador de Santa Maria, teria ameaçado familiares e avançado com um martelo contra policiais chamados para tentar contê-lo.
Perguntas me surgem...por que conter os surtos à bala? Será que foram esgotadas todas as tentativas de controlar o indivíduo por outros meios? Sei que em muitos casos o policial atira porque está a ponto de ser morto. Mas um martelo só pode ser contido mediante uma arma de fogo?
Enquanto leigo, embora estude e conviva com questões de segurança pública há 40 anos, sei que o disparo de uma arma é (ou deveria ser) a última opção do policial. Faz isso ante a iminente ameaça de um agressor armado, contra ele ou contra outra pessoa.
No caso específico de Santa Maria, os relatos são de que o martelo seria usado por Santos para quebrar a viatura militar. Os PMs costumam dispor de armas taser, usadas para parar alguém mediante choques elétricos. Será que estavam disponíveis? Na ocorrência só constam os tiros de revólver, me informa a colega Tayline Manganeli, repórter que cobriu o caso. E estavam em mais de um, enquanto o agressor era um só.
Em 2025 tivemos dois casos emblemáticos de pessoas em surto mortas pela BM na Região Metropolitana. Um deles, Herick Vargas, que ameaçava familiares e foi baleado pelos policiais depois que os disparos de taser não conseguiram contê-lo, quando avançava contra os PMs. O outro episódio aconteceu em Guaíba e resultou na morte do caldeireiro industrial Carlos Eduardo Nunes, 43 anos. Em surto, ele foi contido por policiais com choques de taser e um golpe de arte marcial conhecido como "mata-leão" (que provoca sufocamento). O homem sofreu uma parada cardiorrespiratória, ficou internado por dois meses e morreu.
Nenhum desses dois estava armado, embora manifestassem ataque de fúria e tenham investido contra os PMs. Será que a contenção poderia ter sido feita de outra forma, por meio de jiu-jitsu, técnicas de boxe ou outras artes marciais? O treinamento dos policiais gaúchos abrange de forma suficiente o domínio de técnicas para conter agressores sem matá-los? São questões para refletir, até porque no ano passado o número de casos de surto registrados pelas equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) aumentou 4,7%. Foram 21.982 ocorrências.
As secretarias de Saúde e Segurança Pública anunciaram um protocolo conjunto para atender casos de surto psíquico. Bom isso, até porque, com tão alto número de ocorrências, é questão de tempo para lamentarmos novas mortes.
O que diz a Brigada Militar
A Brigada Militar instaurou Inquérito Policial Militar para apurar as circunstâncias do óbito de um homem de 35 anos, ocorrido na manhã desta terça-feira (13/11), no município de Santa Maria, durante o atendimento de uma ocorrência de violência doméstica entre irmãos.
Preliminarmente, vídeos indicam que o cidadão caminhou em direção à viatura policial e, momentos depois, por circunstâncias que ainda estão sendo investigadas, um policial militar desembarcou do veículo e efetuou o emprego de recurso letal para conter o indivíduo, que teria investido contra o agente.



