
Uma das obras mais lidas no início dos Anos 1990 foi O Fim da História e o Último Homem, do filósofo norte-americano Francis Fukuyama. O autor defendia que o capitalismo e a democracia burguesa constituem o coroamento da história da humanidade. Após a "destruição" do fascismo e do socialismo, o homem teria atingido o ponto "culminante" de sua evolução, com o triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias concorrentes.
Os fatos insistem em desmentir Fukuyama diariamente. Ao invés de morrer, o fascismo se revigorou, mesmo que em partidos que não usam essa palavra para se auto definirem. A ideia de ordem acima de tudo e do direito do mais forte se sobrepor sobre os mais fracos é exibida sem pudores por governantes mundo afora, Donald Trump que o diga. As democracias liberais estão enfraquecidas. Pelo menos dois governos se definem como comunistas (na China e na Coreia do Norte), afora nações menores. A história muda de forma galopante e junto com ela, a geopolítica. Basta lembrar a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro este mês e as ameaças dos EUA de anexarem a Groenlândia, com sanções aos países que se opuserem.
Fukuyama escreveu sua teoria animado com a queda do Muro de Berlim (1989), os protestos por democracia na China e o fim da União Soviética. Os fatos começaram a desmentir o filósofo logo após a publicação do livro. Desde que foi lançada a obra, em 1992, a antiga Iugoslávia se dividiu em seis diferentes países. A China sufocou todos os protestos e se consolidou como superpotência governada por partido único (comunista). A Rússia invadiu a Ucrânia e tenta estabelece alianças econômicas e militares com as antigas repúblicas soviéticas. E os Estados Unidos anunciaram que a América é deles - e azar de quem não gostar.
Não tem nada de fim nessa história. Assistimos entre curiosos, surpresos e amedrontados o surgimento de uma nova ordem mundial, na qual as superpotências dividiram o planeta em zonas de influência. A lacração de Fukuyama, sucesso absoluto de vendas literárias, se revelou uma furada. Até lamento. Seria bom ver triunfar as democracias de inspiração liberal, em que opositores não são inimigos e ideias não são encaradas como ofensas. Sonhar não custa.


