
A ação militar dos Estados Unidos no continente americano é tão rara que muita gente achou que Donald Trump blefava quando ameaçou explicitamente retirar Nicolás Maduro do poder. Não era blefe, agora sabemos. Os detalhes ainda estão por surgir, mas houve bombardeio, neutralização de blindados e aeronaves, paralisação do sistema de defesa aérea venezuelano, aquela receita toda que as intervenções bélicas norte-americanas reproduzem ao redor do mundo. O estilo foi similar ao usado no Oriente, com tropas especiais localizando e neutralizando o alvo, como aconteceu quando mataram o terrorista Osama Bin Laden no Paquistão.
Foi a primeira ação militar dos EUA de envergadura na América do Sul na história. Falamos aí de operações bélicas, não políticas — essas sempre aconteceram nos bastidores, permeadas por espionagem e golpes de Estado. Como aconteceu no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai, na República Dominicana, na Bolívia (várias vezes) e no Peru. Para ficar em alguns exemplos.
Já o engajamento militar direto dos EUA em ações no continente é pouco comum. Já aconteceu, mas na América Central. Em 1983, em Granada (pequena ilha do Caribe, para apoiar um governante deposto por um golpe socialista). Em 1989, no Panamá (derrubando o ditador militar Manuel Noriega, acusado de tráfico de drogas). E em 1994 no Haiti (para depor uma junta militar que havia afastado o presidente eleito Jean-Bertrand Aristide). O argumento sempre foi de restaurar a democracia.
A diferença entre os alvos do passado e do presente também é marcante. Enquanto os três países da América Central eram pequenos e com pouquíssima expressão geopolítica, a Venezuela é um player mundial do petróleo. Possui também terras raras, ambicionadas tanto pelos EUA como pela China e Rússia (aliadas de Maduro). Ou seja, bem provável que a defesa da democracia neste caso seja mesmo apenas cortina de fumaça para uma mudança de regime que beneficie os interesses econômicos dos EUA.
Só que o regime bolivariano não caiu. Aliados de Maduro continuam dando discursos e ganhando apoio diplomático mundo afora. Sem bola de cristal é difícil dizer se o ataque norte-americano será o estopim para uma revolta popular contra o bolivarianismo ou se os herdeiros ideológicos de Hugo Chávez se manterão no poder. Maduro escapou com vida. De certa forma, teve sorte. O mesmo não se pode dizer de outros líderes autoritários que terminaram mortos, como o líbio Muammar Kadaffi e o iraquiano Saddam Hussein.


