
A rapidez com que Nicolás Maduro foi destronado espantou até mesmo os mais experientes militares brasileiros, gente que estuda geopolítica e poder bélico há décadas. Este colunista consultou três generais e um coronel (da ativa e da reserva), todos versados em estratégia de guerra. Em comum, mostram surpresa com a ineficácia do aparato de defesa antiaérea da Venezuela, que caiu como um castelo de cartas, praticamente sem dar disparos. Aparelhagem essa de origem russa e chinesa, aliás.
O general de divisão Fábio Castro, que foi há pouco para a reserva e serviu como adido militar do Brasil nos EUA, acredita que o que vimos na derrubada do Maduro foi "cenário de 4ª e 5ª gerações do combate, a chamada G5G (guerra de 5ª geração)".
As características dela são, conforme o general Castro:
- Conflito híbrido: mistura ações militares, políticas, econômicas, jurídicas e informacionais
- Guerra da informação: fake news, manipulação de opinião pública, redes sociais
- Ciberataques: contra infraestrutura crítica, comunicações, sistemas financeiros
- Atuação indireta: uso de proxies (guerreiros por procuração), grupos não estatais, lawfare (guerra jurídica)
- Alvos cognitivos: busca a conquista de mentes, vontades, moral e coesão social
- Baixa visibilidade: muitas vezes, sem declaração formal de guerra
Um general de Exército que até meses atrás integrava o Estado-Maior faz eco a esse diagnóstico, mas com uma ressalva: o surpreendente é a velocidade com que o aparato de Maduro ruiu, não sua queda. Ele salienta que desde que os EUA concentraram milhares de militares e centenas de aviões próximo à Venezuela, estava definido o destino do presidente venezuelano.
— Quando a Rússia colocou divisões de blindados e milhares de combatentes na fronteira com a Ucrânia não foi para blefar, foi para invadir. O que surpreendeu no caso da Venezuela foi a forma com que os norte-americanos agiram. As chances de uma ação dessas dar errado são maiores do que de dar certo. Mas conseguiram sincronizar de forma fantástica o cibernético e o eletrônico, cegando as comunicações venezuelanas. Os venezuelanos não conseguiram se entender, escutar, falar pelo rádio. Dar e receber ordens. As forças especiais dos EUA se infiltraram de forma espetacular. Não há reparos a fazer no plano tático — analisa o general de quatro estrelas.

O coronel consultado, que atuou em vários países estrangeiros, diz que a surpresa foi tática (conjuntural), não estratégica (o desfecho já era esperado).
— Homem de negócios, Trump não costuma dar passos sem esperar retorno concreto. Nesse contexto, é difícil imaginar que os Estados Unidos concentrariam tamanho poder militar no entorno da Venezuela apenas como gesto retórico — exemplifica.
O coronel acrescenta: mais importante do que a operação em si é o seu efeito psicológico e político. Maduro era o elemento mais protegido da hierarquia venezuelana. Se os Estados Unidos conseguiram alcançá-lo, a mensagem é direta e brutal, podem alcançar qualquer um.
Outro general de quatro estrelas, também integrante recente do Estado-Maior, ressalta: a hegemonia militar norte-americana permanece intocada, embora nos campos econômico e cultural os EUA sofram reveses cada vez maiores:
— Não tem pra chinês, não tem pra russo. O nível de investimento financeiro na indústria bélica dos EUA é estrondoso e contínuo. Agora vamos ver como farão na questão política. Pelo visto tentam corrigir um erro grave cometido no Iraque, quando desmantelaram as Forças Armadas locais e permitiram que centenas de milhares de soldados treinados fossem para casa armados, dando origem a grupos guerrilheiros e terroristas. Agora me parece que tentam manter o governo e uma estrutura militar na Venezuela.
O general Fábio Castro considera que a nova doutrina Monroe esgrimida pelo presidente norte-americano Donald Trump deixa claro que divergências políticas serão toleradas, mas não aquilo que for considerado pelos EUA uma ameaça militar. "O gatilho ficou mais leve", resume.
Outro general observa que o arsenal militar disponível para parceiros comerciais dos norte-americanos, como o Brasil, se resume a soluções que fazem parte da 3ª geração de guerra. Armas físicas, normalmente usadas em conflitos de baixa intensidade, com oponentes de mesmo poder de combate, sem agregados técnicos capazes de serem decisivos. Já a parte de eletrônica embarcada, com softwares modernos e capacidade de "cegar" o inimigo, será dosada para parceiros confiáveis.
Os quatro militares entrevistados concordam que a Organização das Nações Unidas (ONU), mais uma vez, se mostrou um órgão decorativo, mesmo que desejável e necessário para o mundo.
— A lógica norte-americana se aproxima da intervenção na República Dominicana nos anos 1960. Neutraliza-se a cabeça do regime, preserva-se parte do segundo escalão em um governo tampão, cria-se uma transição controlada. Garantem acesso ao ouro, ferro e bauxita (alumínio), além das maiores reservas de petróleo do mundo. Deixam instalado um governo cheio de medo de contrariar Washington, pois presenciaram o que acontece com quem tenta isso — pondera o coronel.
E o Brasil, nisso tudo? Um general que atuou em Roraima diz que há pouco a fazer, a não ser guarnecer a região para evitar fuga em massa de militares venezuelanos armados (caso o regime desmorone de vez). Eles não consideram que as Forças Armadas brasileiras serão envolvidas em qualquer conflito derivado da situação venezuelana.
Mas o cuidado é necessário e o Brasil dobrou o efetivo do Posto de Fronteira em Pacaraima (fronteira com a Venezuela), que era um pelotão (menos de 30 homens) e virou companhia (mais de 100). O Exército também multiplicou o número de blindados nas duas fronteiras, com Venezuela e Guiana (são 50 agora, 28 de combate), com 600 militares agregados. Razoável, do ponto de vista fronteiriço. Desde que o adversário não seja um EUA.




