
A descoberta de uma indústria clandestina de cigarros na zona rural de Viamão, quinta-feira (11/12), evidencia mais uma vez como o Rio Grande do Sul se tornou destaque nacional nesse tipo de crime. A fábrica, fechada pela Polícia Federal e Receita Federal, usava marcas paraguaias e contava com trabalhadores do Paraguai, que atuavam em regime semiescravo - vigiados com câmeras de segurança e impedidos de sair livremente da propriedade onde se encontravam.
Dados do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP) revelam que, entre 2021 e 2025, foram fechadas 42 fábricas clandestinas de cigarros. O número, em apenas cinco anos, supera o total registrado ao longo de toda a década anterior (2007 a 2020), quando foram identificadas 36 unidades ilegais. Ou seja, o percentual praticamente dobrou.
E quem são os líderes nesse ranking de falsificações? A maior parte das fábricas clandestinas desmanteladas nos últimos 10 anos estava localizada na região Sudeste. São Paulo lidera nos registros, com 25 fechamentos, impulsionado pela proximidade dos grandes centros consumidores e estrutura logística favorável. Em seguida vem Rio de Janeiro e Minas Gerais, ambos com 12 fechamentos e em quarto lugar está o Rio Grande do Sul, com 11.

Apenas em 2024, o mercado de cigarro ilegal no Rio Grande do Sul movimentou R$ 755 milhões para facções criminosas e milícias, segundo a pesquisa do instituto IPEC. A campeã de vendas é a marca contrabandeada Gift, que foi encontrada na fábrica clandestina desarticulada esta semana em Viamão.
Eu e o colega Ronaldo Bernardi acompanhamos o fechamento de quatro dessas indústrias nos últimos anos. Caso o leitor não esteja tão informado: eles importam até os empregados do Paraguai, além dos rótulos e alguns insumos contrabandeados. Só o fumo é brasileiro (gaúcho, na maioria das vezes).
Tudo isso significa sonegação brutal, além de exposição do consumidor a fumos sem qualquer garantia sanitária e trabalho semiescravo para os operários. Um compêndio de crimes.
Conforme a FNCP, a montagem de fábricas de cigarros paraguaios no Brasil reflete uma mudança de estratégia do crime organizado - que tem diminuído o contrabando nas fronteiras para investir na produção ilegal local em larga escala. O crescimento desse modelo de operação é acelerado.
Tradicionalmente abastecido por cigarros contrabandeados do Paraguai, o mercado ilegal brasileiro agora opera uma espécie de indústria paralela, a serviço da máfia do cigarro. Produzir em território nacional reduz riscos logísticos, evita apreensões nas fronteiras e amplia os lucros. Com estrutura profissional, estima-se que esse modelo criminoso movimenta cerca de R$ 4 bilhões por ano, livre de impostos, fiscalização sanitária e encargos trabalhistas. E ainda: as fábricas clandestinas, antes focadas apenas em copiar marcas paraguaias já consolidadas no Brasil, agora também falsificam marcas legais brasileiras, com embalagens e selos quase idênticos aos originais. Nas últimas duas fábricas estouradas no Rio de Janeiro este ano, por exemplo, tinham produção de cigarros falsificados de marcas legais nacionais.
Para o presidente do FNCP, Edson Vismona, a mudança de rota do crime é um sinal de alerta.
- O crime organizado está se estruturando como uma verdadeira indústria criminosa dentro do Brasil. O que antes era contrabando, hoje é produção nacional em larga escala, com falsificação de marcas, trabalho análogo à escravidão e enormes prejuízos à arrecadação. Essa atividade financia outras práticas ilícitas e mina a capacidade do Estado de reagir — desabafa.



