
Vou ter de bisar o assunto Venezuela esta semana na coluna, mas é por força maior. O New York Times acaba de fazer uma das mais completas reportagens sobre o clima de tensão naquele país caribenho, por força das sanções e pressões militares cada vez maiores impostas pelos Estados Unidos. Conforme o repórter Anatoly Kurmanaev, que desde 2013 cobre esse assunto, o presidente venezuelano Nicolás Maduro tem uma rotina de fugitivo em seu próprio país.
A rotina de Maduro inclui troca de celulares e endereços várias vezes ao dia. Até as camas são mudadas entre ele e guarda-costas, para o caso de algum atentado. O presidente venezuelano teme ataque de precisão com mísseis ou uma incursão de forças especiais norte-americanas. E há razões de sobra para isso.
O presidente norte-americano Donald Trump anunciou publicamente recompensa de US$ 50 milhões (algo como R$ 250 milhões) por pistas que levem à prisão de Maduro. Não está claro se recompensaria por um assassinato. Além disso, determinou fechamento do espaço aéreo da Venezuela, que está praticamente isolada dos demais países. Uma frota aeronaval dos EUA composta por nove navios e centenas de aviões está no Caribe, não muito longe do território venezuelano, pronta para agir.
Tudo indica que não haverá uma invasão, pelo temor de um banho de sangue que repercuta mal inclusive entre os cidadãos norte-americanos. A pressão nada sutil é para que Maduro renuncie ou seja vitimado por um golpe de Estado.
Para reduzir o risco de traição, Maduro se cercou de um pelotão de guarda-costas cubanos, informa o New York Times. São cubanos também os encarregados da contraespionagem dentro das Forças Armadas Venezuelanas. A missão deles é detectar planos de golpe.
Maduro também restringiu sua participação em eventos públicos ao mínimo possível. Quando acontecem, não são anunciados com antecedência, ele aparece de surpresa e com trajetos mudados de última hora. Só aparece em locais guarnecidos por atiradores de elite.
Mas é cedo para dizer que o governo dele acabou. Desde que assumiu o cargo, Maduro sobreviveu a um colapso de 70% do Produto Interno Bruto per capita da Venezuela, a diversas ondas de protestos nacionais em massa e a várias conspirações, tentativas de golpe e derrotas eleitorais (transformadas em vitórias nas urnas, contestadas pela oposição e até por observadores internacionais). Para manter apoio das Forças Armadas, entregou grande parte da economia do país a seus generais , que foram autorizados a administrar minas de ouro, empresas de serviços petrolíferos e empresas de importação e exportação. Com tudo isso, não será estranho se ele durar um pouco mais de tempo no poder. Mesmo que à custa de noites insones e dias de fuga constante.




