
Ditaduras atingem não só seus adversários políticos, mas também os herdeiros deles, que muitas vezes não têm qualquer noção do que lhes aconteceu e porque tiveram de deixar seus brinquedos ou seu país. Isso vale para Venezuela atual, vale para o Brasil do regime militar. E dois livros lançados em 2025 coincidem na temática de infâncias marcadas pelo banimento dos seus pais.
O primeiro é "Crianças e Exílio: Memórias de Infâncias Marcadas pela Ditadura Militar", da Carta Editora. É uma coletânea de depoimentos de filhos e filhas de militantes de esquerda perseguidos, presos, torturados ou assassinados pela ditadura militar que vigorou de 1964 a 1985 no Brasil. As organizadoras, Helena Dórias Lucas de Oliveira e Nadejda Marques, convenceram 46 pessoas a darem seus depoimentos sobre a vida no exílio. É um contingente expressivo, já que o grupo total de crianças banidas pelo regime fardado foi de 67.
Cada capítulo narra a história de uma criança, na primeira pessoa. Muitas eram ainda bebês e não lembram da viagem de ida para um país desconhecido. Outras já concatenavam ideias. É o caso do pernambucano Anacleto Julião de Paula Crêspo, um dos filhos do líder das Ligas Camponesas Francisco Julião (um dos primeiros cassados pelo regime militar). A família dele se refugiou em Cuba, mas antes de sair do Brasil foi alvo de ameaças intensas de morte, inclusive as crianças. Ele e os irmãos pequenos peregrinaram por vários países, aprendendo vários idiomas e costumes, voltando do exílio apenas no início dos Anos 1980.
Artionka Capiberibe, Luciana e Camilo tiveram uma autêntica vida cigana, de terra em terra, vagando por continentes e países. Filhos de João Capiberibe, dirigente socialista, moraram na Rússia, em Chipre, em Portugal e Moçambique, antes de retornarem ao Brasil. Apesar dos perrengues, alguns preservam o humor ao descrever as jornadas.
- Eu tinha nome russo, falava russo e com pele morena, então era motivo de curiosidade entre coleguinhas. Se ao menos tivesse sido batizada com outro nome mais comum na Rússia, como Natasha... - diverte-se Artionka.
Pesquisadora e professora de direitos humanos, Nadejda Marques também foi uma criança exilada e acabou contando sua história em um dos capítulos do livro. Ela é autora de uma autobiografia chamada Nasci Subversiva, que conta como crianças eram fichadas e tratadas como terroristas ou subversivos durante a ditadura no Brasil.
- Saí do Brasil em 1973, quando tinha 15 meses. Fui exilada no Chile e depois refugiada política na Suécia, após o golpe militar no Chile. Da Suécia, fui para Cuba, onde vivi entre os anos de 1974 e 1979. Em 1979, quando tinha sete anos, antes de voltar ao Brasil, moramos alguns meses no Panamá, pois o Brasil não tinha relações diplomáticas com Cuba. O Panamá foi um país de exílio, mas também de transição para a nossa volta ao Brasil - descreve a escritora.

Coincidência ou não, o exílio de crianças é tema do outro livro que menciono, "E manchado de sangue terás de crescer", do gaúcho Christopher Goulart, publicado pela Editora Minotauro. É uma autobiografia precoce, já que o autor, neto do ex-presidente João Goulart, tem apenas 45 anos. Mas muito vividos, diga-se de passagem. Advogado e figura tradicional do trabalhismo, ele nasceu em Londres, para onde seu pai, João Vicente Goulart, e sua tia, Denise, tinham sido enviados pelo avô exilado e que teve o governo derrubado por militares em 1964.
- Quando meu avô escapou do Brasil, onde corria risco de vida, para o Uruguai, meu pai e minha tia foram juntos. Adolescentes ainda, foram vítima de perseguições dos que odiavam meu avô. Meu pai foi inclusive preso e torturado, embora ainda um estudante. Aí buscou segurança em Londres, onde nasci - descreve Christopher.
Ao longo de 416 páginas Goulart também descreve uma vida de andarilho, apesar dos atenuantes do sobrenome famoso. As coincidências começam dias depois seu nascimento, quando João Goulart teve um mal súbito e morreu, de forma suspeita, no exílio em sua fazenda na Argentina. Christopher inclusive participou, décadas depois, da exumação do corpo do avô, por indícios de que pode ter sido envenenado. As perícias deram inconclusivas, mas o advogado-escritor está convicto de que o ex-presidente foi vítima de assassinato - como, aliás, ex-agentes do serviço secreto uruguaio relataram, inclusive em entrevista a mim, décadas atrás.
São duas obras impactantes e, diria até, imprescindíveis para conhecer um pouco mais da impressionante história do Brasil.



