
Os aplausos para as balas na cabeça dos bandidos venceram o Gre-Nal ideológico sobre a mais letal operação policial já registrada no país. Foram 121 mortos no Rio, na semana passada, se você não ouviu falar ou estava fora do planeta. Até agora não está comprovado que todos eram criminosos, mas é certo que a maior parte deles era. E enfrentar os policiais e a morte faz parte do risco de quem opta pelo caminho das armas como meio de ascensão social.
Mas esse não é o ponto que quero aprofundar. A curto prazo as forças de segurança obtiveram uma vitória, mas e a médio prazo? Os mortos do Complexo do Alemão e da Penha serão substituídos em dias por novo contingente do tráfico, como alerta o fundador do jornal Voz das Comunidades, Renê Silva, que vive na periferia do Rio.
Muitos cidadãos pouco ligam para o destino dos jovens favelados, mas deveriam. Ainda que em causa própria. É impossível matar todos os criminosos. E morticínios trazem rancor, espírito de vingança.
Falo com conhecimento. Entrevistei várias vezes bandidos em vilas do Rio de Janeiro e de Porto Alegre. Soltos, com armas. Soldados na guerra do tráfico. O que mais me chamou a atenção, no caso dos cariocas, é que vários deles nunca tinham tomado um banho de mar. Não conheciam a maravilhosa Zona Sul, um aeroporto, não frequentavam shopping. Por questões da geopolítica do crime, estavam cercados por inimigos e seu mundo se resumia à própria favela onde vivem. Sem praia e sem cinema, mas com fuzil.
Faziam o que, além de vender e consumir drogas? Iam ao baile funk, namoravam as gurias da vila, se exibiam com armas na internet, a desafiar oponentes, com hormônios a mil. A primeira receita para quebrar esse círculo vicioso seria tirar o atrativo que o tráfico representa. O crime é atividade de risco, sem carteira assinada, com dever de fidelidade mortífero ao patrão, mas com muitos ganhos para locais onde emprego decente é raridade.
Existem iniciativas para tentar minimizar os atrativos do crime. Uma delas é as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), postos policiais montados nas favelas, mas acompanhados de quadras esportivas, cursos profissionalizantes, redes de energia e internet onde antes não havia nada disso. Com o tempo faltaram investimentos complementares, o tráfico retornou e as UPPs perderam força, mas ainda são referenciais. Outra ação meritória é a escola de turno integral. Tanto no Rio como em Porto Alegre, ela ajuda a tirar as crianças das ruas (e do crime). São opções de longo prazo, mas será que a sociedade quer esse tipo de futuro? Ou prefere o imediatismo que pode levar a padrões mexicanos de mortandade e vingança? Hora de pensar.




