
Viva rápido e morra jovem, pregavam vanguardistas do rock'n'roll. Era uma época de revolta contra tudo que cheirasse a mofo, que fosse antigo. Vale também para explicar como milhares de jovens continuam a sucumbir em confronto com policiais e rivais do crime, sobretudo no Brasil. É que o tráfico de drogas dobra os ganhos (e os riscos) para os adolescentes. O perigo vira glamour.
Eu ou você intuímos isso, nossos pais já alertavam, mas estudos científicos agora comprovam essa simbiose mortífera. Um deles, intitulado Vivendo no limite: entrada, carreira e saída de jovens em gangues de tráfico de drogas, foi escrito por dois estudantes de Economia, Leandro Carvalho (da Universidade do Sul da Califórnia, Estados Unidos) e Rodrigo Soares (da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas). Mesmo publicado no final de 2015, o artigo (aqui) continua atual e ajuda a entender episódios como a morte de 121 pessoas durante a mais letal operação policial já realizada no Brasil, há duas semanas, no Rio de Janeiro.
O estudo de Carvalho e Soares se embasa em entrevistas feitas com 230 cariocas da periferia, feitas pela ONG Observatório de Favelas. O trabalho aponta causas que levam moradores de áreas miseráveis a trabalhar para o crime organizado. Vantagem econômica é, sem qualquer surpresa, o principal motivo em locais com pouca oferta de salário decente.

Na época do estudo os iniciantes nas quadrilhas ganhavam, em média, US$ 316 por mês (cerca de R$ 1,7 mil). Mais que o dobro do que esses adolescentes ganhariam se estivessem trabalhando no setor formal. Hoje essa média deve estar maior. Existe ainda no crime perspectiva de crescimento profissional, quase um plano de carreira informal. A "firma" do tráfico opera como empresa, com funções de iniciantes ("olheiros" para vigiar e "vapores" para vender a droga), intermediárias (soldados) e de gestão (gerentes). Além disso, os jovens com hormônios a mil podem dar vazão à adrenalina, como andar armados com o melhor (e pior) oferecido pela indústria bélica, feito Rambos mirins. O que também serve para atrair namorada (o)s e conferir poder, em muitos casos.
Os riscos, claro, são enormes. Mais da metade dos entrevistados admitiu ter travado confrontos armados com gangues rivais e cerca de dois terços haviam participado de tiroteios com a polícia. Ao final de dois anos, 20% dos depoentes havia morrido. A probabilidade de morte é 10% maior para os membros que ocupam posições mais elevadas na hierarquia do narcotráfico, mas eles ganham 90% a mais do que os novatos na profissão.
Por fim, outras constatações: pouco importa às gangues se o jovem estudou. O grande estímulo é para quem demonstra experiência, coragem e lealdade. A constatação final do trabalho acadêmico é que, para driblar a exposição precoce a economias ilegais, é essencial que as políticas públicas elevem o valor da educação e reduzam o trabalho infanto-juvenil. Uma possibilidade é criar programas de transferência de renda condicionada à frequência escolar. Outra é colégios de turno integral, para afastar os jovens das ruas.




