
"Co yvy oguereco yara", diz o pórtico de São Miguel das Missões, na entrada para o que restou das portentosas construções jesuíticas que um dia dominaram o oeste do Rio Grande do Sul. Traduzindo para o português: "Essa terra tem dono!". É frase atribuída ao líder guarani Sepé Tiaraju, um verdadeiro herói gaúcho. Há quase 300 anos, ele enviou carta aos reis de Portugal e Espanha, informando que seu povo não iria aceitar a transferência forçada das populações indígenas, acertada pelos dois países.
Sepé e alguns milhares de guaranis resistiram a um poderoso exército formado por portugueses e espanhóis (numa rara colaboração entre esses rivais europeus). Os indígenas, inclusive ele, foram massacrados em 1756 e as missões deixaram de existir fisicamente. Restaram ruínas, como as da lindíssima igreja de São Miguel, da qual acabo de retornar e que revigoraram espiritualmente a mim e à minha mulher, Angélica. Percorremos locais belíssimos e vinícolas espetaculares (poucos sabem, mas o vinho gaúcho nasceu nas Missões).
Os guaranis continuam por lá e, arrisco dizer, em pobreza igual ou maior do que a de três séculos atrás. Perambulam em frente a restaurantes, pedindo por algum prato de comida. Tentam vender artesanato, parte dele feito de penas tingidas com cores artificiais. Como diz Pedro Ortaça, maior cantor missioneiro vivo, "há uma pena guarani, de uma dívida cruel, de quem ficou por aí".

A concentração de guaranis vendendo objetos típicos junto ao museu instalado nas ruínas de São Miguel das Missões é grande. Comercializam bichos de cortiça, colares, pulseiras, arcos e flechas, estátuas de santos. Pés descalços, túnicas puídas, aguardam plácidos pelo interesse dos visitantes, em sua maioria brancos com seus caminhonetões e outros veículos estalando de novos. Os turistas pouco compram, mas tiram muitas fotos. Como se estivessem visualizando seres exóticos. Alguns chegam a apontar o dedo, admirados.
Só que exóticas são as visitas. Os guaranis são os legítimos donos daquela terra - ou deveriam ser. Peregrinam pelas estradas do Rio Grande, como fantasmas errantes, mas de carne e osso. Só espero que sejam generosamente incluídos no pacote de R$ 50 milhões anunciados pelo governo do Estado e alguns municípios para investimentos relativos aos 400 anos das Missões, em 2026. Localizei apenas R$ 330 mil de investimento direto para os guaranis de São Miguel das Missões, numa rápida pesquisa. Os moradores originários merecem e precisam de mais do que isso.





