Tenho recomendado cautela antes de definir como bandidos todos os mortos da mais mortífera operação policial já realizada no Brasil. É o mínimo, diante de 121 cadáveres enfileirados no Rio, mas muitos leitores não entendem assim e me acusam de jamais ter pisado numa favela, de nunca ter visto criminosos armados e de defender eles. Percebi que uma geração inteira, inclusive de colegas, não sabe que acompanho o Comando Vermelho desde quando a facção engatinhava na expansão pela periferia carioca. Estive pelo menos 15 vezes em coberturas de crimes naquela região e vou resumir aqui algumas dessas vivências intensas. Elas estão no meu livro Em Terreno Minado, para quem quiser detalhes.
Entrevista com traficantes após massacre de Vigário Geral
No último dia de agosto de 1993, um combo de policiais militares e civis decidiu vingar a morte de quatro PMs assassinados a sangue-frio por traficantes do subúrbio de Vigário Geral (Rio), quando tentavam reprimir racha de carros. Invadiram a comunidade à noite e mataram quem viram pela frente. Vinte e uma pessoas. Nenhuma com antecedentes criminais, porque os criminosos tinham fugido e os policiais se vingaram nos seus familiares.
Enviados a Vigário Geral ao amanhecer, o fotógrafo Ronaldo Bernardi e eu acompanhamos o drama na comunidade. E decidimos tentar uma entrevista com traficantes do Comando Vermelho, liderados por Flávio Pires da Silva, o Flávio Negão. Tanto furungamos que fomos recebidos por um grupo deles, ao anoitecer, armados com pistolas e revólveres. Negão não estava. Após segundos de desconfiança, abriram a guarda e as memórias. Admitiram ter fugido ante o avanço de tropas mais numerosas da PM. Reconheceram que costumam matar inimigos. Posaram para fotos com armas e drogas, em frente a muros pintados com frases e símbolos do CV. Contaram a rotina de nunca ter ido ao mar ou ao cinema. Conseguimos uma reportagem exclusiva que nem os colegas do Rio tinham. A nossa conversa com os bandidos foi reproduzida pela imprensa carioca.
Amarrados, a caminho da vala
Em novembro de 1993 Ronaldo Bernardi e eu convencemos o diretor de Redação de Zero Hora à época que era preciso retornar a Vigário Geral. Chegamos e fomos direto procurar a quadrilha que dominava a região. Fomos recebidos por um grupo armado, em que alguns dançavam break ao som de funk em rádios gigantes. Não reconheci nenhum. O fotógrafo tentou registrar e foi ameaçado. Percebi logo o problema: o movimento do tráfico tinha mudado, o dono não era mais Flávio Negão. Desconfiaram que nós éramos policiais, não jornalistas, mesmo com nossas credenciais e máquina fotográfica. Resultado: nos amarraram com mãos para trás, com lacres de segurança (daqueles de supermercado). Um deles apontava uma pistola para a cabeça do fotógrafo Ronaldo, que o desafiou a brigar sem arma. Alguns acharam engraçado, outros começaram a gritar "Leva pra vala". Fomos conduzidos, tudo indica para uma morte antecipada por torturas, até que lembrei do nome de um traficante que nos dera entrevista: Vinícius. E descrevi o rapaz. Para minha sorte, estava vivo e continuava na quadrilha. Foram buscar ele, que nos reconheceu, mandou nos soltar e ainda se desculpou. Vida que segue.
Na mira dos fuzis
Ronaldo Bernardi e eu voltamos em 1995 ao Rio para antecipar a iminente ocupação de 12 comunidades pobres pelas Forças Armadas. Chegamos e decidimos fotografar traficantes, antes que fossem "neutralizados" (mortos, no jargão militar). Subimos a Rua Almirante Alexandrino, que margina o lindo bairro de Santa Teresa, e ao lado da favela do Fallet (morro do Fogueteiro) ouvimos dezenas de disparos e vimos carros voltando de ré. Descemos do táxi e subimos a pé, localizando um PM solitário, que atirava com um fuzil FAL 7.62mm contra bandidos escondidos sob uma residência de alvenaria na comunidade. Os criminosos, vestidos com fardas camufladas e bonés de recruta, também disparavam. Ronaldo conseguiu fazer vários flagrantes deles, até que se indignaram, nos colocaram na mira e dispararam com seus fuzis alemães HK-MP5. Felizmente, eram ruins de mira e, por isso, continuamos aqui.
Bandidos sorridentes no Complexo do Alemão
A cena dos traficantes do CV em fuga morro acima, entre os complexos da Penha e do Alemão, correu mundo em 2010. Estavam cercados pelas Forças Armadas e encurralados pelas polícias Civil e Militar, inclusive com uso de helicópteros. E a RBS estava lá com um time de repórteres: Rodrigo Müzell, Cid Martins e eu. Acompanhamos durante dias a operação para prender os bandidos entrincheirados nas 13 comunidades do Alemão. E, numa ocasião, a mídia conseguiu fotografar os quadrilheiros. Estavam sorridentes, faziam gestos obscenos para as câmeras e disparavam a esmo, desafiando os militares. Numa das rajadas, um tiro atingiu um ombro do fotógrafo ao meu lado, Paulo Whitaker (da agência Reuters). Junto a nós, um sargento do Exército foi baleado numa coxa. Ambos sobreviveram. No dia seguinte começou a operação que expulsou a facção daqueles morros da zona norte carioca para implantar ali Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Foi uma época bacana, mas o que é bom dura pouco, já dizia minha avó. O CV voltou e tivemos essa mortandade na mesma região nesta semana. Ciclos de um conflito social complexo, à espera de um projeto duradouro e não eleitoreiro.





