
Mario Ikeda assume na próxima semana o comando dos cerca de 34 mil servidores da Segurança Pública estadual. Coronel da reserva da Brigada Militar, teve como primeiro compromisso após ser anunciado no novo cargo ir a uma formatura de 356 novos PMs gaúchos. Ficou nítida sua emoção ao ver os colegas novatos trajarem a farda pela primeira vez.
Dos ancestrais japoneses, Ikeda herdou o semblante sereno e a voz calma, mas é importante saber: ele é um policial linha-dura, defensor empedernido de mais rigor contra criminosos. Talvez herança do tempo em que era um Caveira, como se chamam aqueles que integram ou integraram tropas especiais (Batalhões de Operações Especiais nas PMs, Coordenadorias de Recursos Especiais nas Polícias Civis). Gente treinada para resolver situações que envolvem risco de vida — deles, dos seus alvos ou das vítimas.
No Rio Grande do Sul, Ikeda foi um dos primeiros integrantes do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da BM. Eram atiradores de precisão, usados para agir durante tomada de reféns por criminosos. Quando necessário, eles neutralizavam o agressor com um tiro de fuzil à longa distância (sniper). Vestiam preto, capacetes de aço, fuzis e coletes, tudo numa época em que os PMs de rua não dispunham desses equipamentos. Ele também fez curso de tropas de elite em São Paulo.
Ao longo dos anos, Ikeda passou a usar menos armas e a frequentar mais cursos de gestão. Virou um Caveira de terno. Seguiu carreira no oficialato superior da BM, chefiou o Comando de Policiamento da Capital (CPC), exerceu o cargo de subcomandante-geral da Brigada Militar, e, na sequência, chegou a comandante-geral da Brigada Militar (entre 2018 e 2019).
Um célebre episódio aconteceu quando Ikeda era subcomandante da BM. Em 2016, policiais militares ficaram feridos numa troca de tiros com bandidos que tentavam matar rivais, na Zona Norte de Porto Alegre. Buscaram auxílio no Hospital Cristo Redentor, mas cruzaram com os mesmos criminosos na hora em que estacionavam para socorro médico — para supremo azar dos delinquentes. Houve nova troca de tiros e, quando alguns dos bandidos tentaram jogar as armas fora para se render, foram mortos pelos PMs.
Defensores dos direitos humanos consideraram que houve uma execução, mas os brigadianos alegaram legítima defesa da sociedade. Acabaram condecorados e promovidos por Ikeda, após o episódio.

Quando Sebastião Melo se elegeu prefeito de Porto Alegre, escolheu Ikeda como secretário municipal da Segurança Pública. Depois, no segundo mandato de Eduardo Leite como governador, ele se tornou adjunto da Segurança Pública estadual.
Ungido agora como novo secretário estadual, Ikeda tem o desafio de manter a performance do seu antecessor, o delegado federal Sandro Caron, que em 2024 conseguiu as menores taxas de crimes da história do Rio Grande do Sul. Enquanto o Brasil patina com 21 homicídios por 100 mil habitantes, Porto Alegre está com 10 assassinatos por 100 mil, média de país desenvolvido. Nos sete anos de Eduardo Leite como governador, o número de homicídios caiu 60%, o de roubos a pedestres, 80%. E o de roubos de veículos, 90%.
— Estou contente de chegar ao fim de minha carreira pública com os melhores números da história — celebra Caron.
Ikeda concorda e admite:
— Minha missão, nada fácil, é avançar e tornar os números de 2025 melhores que os de 2024.
Um dos dilemas é reduzir o número de feminicídios, que aumentou este ano. Até para isso, ele espera contar com um trunfo feminino, a delegada Adriana Regina da Costa, que foi escolhida como sua secretária adjunta e que acumula grande experiência à frente de Delegacias da Mulher.
No caso dos feminicídios a tarefa é árdua, porque maridos ou ex-maridos ciumentos não são criminosos profissionais. É preciso tato e, sobretudo, medidas de prevenção. Já em relação ao banditismo, uma coisa é certa: não esperem moleza. O perfil do novo secretário está longe disso.



