
Falar de literatura latino-americana é lembrar de realismo fantástico. Ou de técnicas literárias aplicadas ao jornalismo (o chamado New Journalism). Dos livros de cordel. De romances policiais. De obras sobre resgate dos povos nativos indígenas e das raízes dos afrodescendentes. Ou sobre o submundo dos cartéis de drogas. Dos feminicídios e outras barbáries cotidianas. E, entre outros, das sofridas experiências do cárcere, já que o continente foi pródigo em ditaduras civis e militares. Todas essas vertentes são analisadas num livro lançado recentemente em Porto Alegre e que será relançado na Feira do Livro, dia 14 de novembro.
A obra é Literatura e Conflitualidade: Sociologia de Romances do Sul Mundial. É um compêndio em que 19 autores de vários países da América Latina analisam livros fundamentais para a construção da memória da região. Um dos organizadores é o sociólogo José Vicente Tavares dos Santos, que foi pró-reitor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e hoje trabalha com estudos de violência e criminalidade.
Violência, aliás, é tema da abertura do livro. Autores do México, do Uruguai e da Colômbia enfocam a visão de escritores notáveis em seus países (como o mexicano Paco Ignácio Taibo II e o colombiano Gabriel Garcia Márquz) sobre os cartéis de drogas, sua política da morte e sobre machismo, entre outras formas de violência.
A segunda parte aborda o realismo mágico, área que consagrou Garcia Márquez e o peruano Mário Vargas Llosa, entre outros. Um outro bloco da obra se chama Escritas da Rebelião e, ao contrário dos primeiros, não trata de ficção e sim, da realidade dos calabouços durante as ditaduras militares latino-americanas. Destaque para um texto que aborda as comoventes cartas de ex-guerrilheiros brasileiros, acusando uns aos outros de entregarem os companheiros durante sessões de tortura. Traiu ou não traiu? Esse é o pano de fundo das missivas, que mostram o rigor inflexível da moral vigente entre os grupos da luta armada. Entre os
que analisam esse período dramático da história estão três integrantes da UFRGS, Paulo Barboza, Enio Passiani e Ana Braun.
Vem da UFRGS também a pesquisadora Rochele Fachinetto, que estuda obras sobre feminicídios e conflitos sociais, no último bloco do livro.
Literatura e Conflitualidade é uma espécie de salada de frutas que deu certo. Mistura ficção e não ficção de forma envolvente, sempre tendo como fundo a relação entre sociologia e literatura. Como define José Vicente Tavares dos Santos, a sociologia foi construída por meio de um diálogo entre a literatura realista e a ciência darwiniana. "Os romancistas se percebiam como sociólogos", enfatiza, ao lembrar dos romances realistas de Balzac, Dickens, Stendhal e Flaubert, além do naturalismo de Zola.
Daí surgiu a sociologia do romance...e esse livro que o leitor terá em mãos.
O que: Literatura e Conflitualidade. Sociologia de Romances do Sul Mundial, 408 páginas.
Autor: 19 autores latino-americanos
Edição: Tomo Editorial, 408 páginas
Lançamento: 14 de novembro, às 16h30min. No Auditório Erico Veríssimo do Clube do Comércio (Rua dos Andradas, 1085, 2º andar), em Porto Alegre.




