
De plantão, abro as mensagens e o destaque é para um carro que despencou no Arroio Dilúvio, que percorre Porto Alegre de leste a oeste. Ficou totalmente submerso, mal dava para ver o teto. Foram quatro os veículos que caíram nesse riacho em um mês. São centenas ao longo dos últimos anos, de tal forma que, quando minha mulher acorda e vê meu ar de espanto, nem finge surpresa. Dá um bocejo e diz:
— Já sei...quem caiu no Dilúvio, desta vez?
A pergunta que me vêm à cabeça é: COMO CONSEGUEM? Não falo com ironia ou por desrespeito. Falo porque considero um mistério. O Dilúvio está situado no meio da Avenida Ipiranga, uma das maiores, mais conhecidas e mais largas da capital gaúcha. São quatro pistas de cada lado, em muitos pontos. Ou três faixas, nas partes mais estreitas.
A Ipiranga é mais larga que a rampa na qual o atleta Sandro Dias, o Mineirinho, quebrou o recorde mundial, descendo 70 metros de um prédio no centro de Porto Alegre. Pois ele fez isso na vertical e depois de forma inclinada, sem derivar para os lados, o que seria fatal. E ele estava a 105 km/h! Como é que motoristas, alguns deles profissionais, não conseguem permanecer numa avenida horizontal, sem escorregar barranco abaixo e mergulhar nas águas poluídas do lindo riacho Dilúvio? Não há notícia de que tenham superado o Mineirinho em velocidade.
Nas redes sociais surgem explicações fáceis. "Isso acontece porque muita gente tira carteira e nem sabe dirigir direito". "É só respeitar a sinalização e o limite de velocidade". "Quem manda dirigir depois de beber?". E por aí vai.
Só que não é tão simples. O ator Werner Schünneman talvez seja o mais famoso desses mergulhadores do Dilúvio. Ao verem a gravação dele se atrapalhando para explicar o que fez seu carro descer o barranco, internautas sentenciaram que ele estava bêbado. Mas o teste do bafômetro deu negativo. E ele sabe dirigir desde jovem, assim como a maioria dos que caem no arroio. Ah, e nem todos caem à noite, o que enfraquece a hipótese da bebida alcoólica como causadora de todos esses acidentes.
O uso de celular enquanto dirige pode ser uma explicação mais plausível. Distração e tchibum!, um mergulho para a história. Mas vi cenas de um senhor idoso que caiu e não parecia o tipo que está sempre agarrado ao telefone.
É realmente uma proeza, até porque, para despencar no Dilúvio é preciso subir o meio-fio, ultrapassar uma faixa larga de grama e pular o guard-rail (onde ele existe). Enquanto analiso hipóteses, lembro de uma cena antológica: rapazes que, durante uma tempestade que formou ondas, resolveram surfar no Dilúvio. Mais divertido, né...E pelo menos não colocaram em risco ninguém a não ser eles mesmos, pela possibilidade de pegar alguma infecção.






