
A contagem de corpos na maior ação policial da história do Rio ainda não terminou, mas tudo indica que é o maior morticínio em operações contra o crime já registrado no Brasil. São até agora 132 mortos, segundo a Defensoria Pública. Isso supera a mais letal operação já registrada até agora, o Massacre do Carandiru, quando 111 presos foram mortos pela PM após uma briga num presídio em São Paulo, em 1992.
Qual foi a lógica da operação policial contra o Comando Vermelho? Já sabemos que era planejada há meses, até porque algo precisava ser feito para deter a expansão da facção, que hoje domina a maioria das comunidades pobres das zonas Norte e Oeste do Rio. Inclusive expulsando seus rivais milicianos (grupos paramilitares formados por policiais e ex-policiais).
Mas era preciso tantas mortes? Duas hipóteses sobressaem. Uma delas é que os policiais entraram para realizar uma operação normal e perderam o controle emocional, após terem quatro colegas assassinados, além de outros feridos gravemente. Vídeos mostram agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Civil (DRE) reclamando que a operação "vazou" e foram surpreendidos pela balaceira dos traficantes ao chegarem nas 13 favelas do Complexo do Alemão.
A outra hipótese é que a intenção das autoridades era mesmo matar os bandidos e não prendê-los. Caso se confirme 132 mortes, serão mais suspeitos mortos do que presos - foram capturadas 81 pessoas na operação do Rio. Essa é uma lógica de guerra, porque ações policiais devem priorizar prisões e não o extermínio.
Muitos leitores questionam: e qual o problema de matar bandidos? Em primeiro lugar, é preciso saber se são todos criminosos. Vídeos mostraram ontem quadrilheiros em fuga em direção à mata do Complexo da Penha, acompanhados de mulheres e crianças. É preciso ressaltar que familiar não pode ser preso ou morto pelo parentesco que tem com algum criminoso. Quem defende o contrário não só age de forma ilegal, mas também imoral, pois assassinato de inocentes é um crime de guerra.
Não é questão de lamentar a morte de bandido, porque esse faz uma escolha e assume o risco, ao andar armado. Mas matar criminoso traz também outro problema, menos moral e mais prático: o bandido morto é rapidamente substituído, por uma geração já alimentada na raiva. É uma solução burra, o famoso enxugar gelo de que tanto se queixam os policiais.
Existe saída? Talvez. Sou da geração que testemunhou uma tentativa de colocar o Estado dentro da favelas, sem usar a lógica da ocupação pelo inimigo.
Assisti à criação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), postos policiais que foram semeados nas principais comunidades periféricas do Rio de Janeiro. Durante anos foram um sucesso. A mera presença dos policiais inibia o trânsito de bandidos armados nas vielas. Além disso, os governantes implantaram junto quadras esportivas, semearam cursos profissionalizantes e, em alguns pontos, escolas de turno integral. Tudo para tentar tirar do tráfico o monopólio da atração que ele exerce sobre os adolescentes. Como tudo, o projeto sofreu desgastes e padeceu com denúncias de corrupção. Mas é a melhor experiência já realizada no Brasil para diminuir a territorialidade do crime organizado.





