
Judeu nascido na Croácia, Vladimir Herzog mudou-se ainda criança para o Brasil. E era um conceituado jornalista e cineasta quando foi chamado, aos 38 anos, para prestar depoimento no DOI-CODI, organismo de repressão política ligado ao Exército. O interrogatório foi numa repartição no centro de São Paulo, em 24 de outubro de 1975, durante a ditadura militar. Entrou vivo e saiu morto, no dia seguinte, após negar vínculo com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Testemunhas relataram que ele foi submetido a intensas sessões de tortura com choque elétrico e não suportou.
O Exército emitiu comunicado dizendo que Vlado (como era chamado Herzog) se suicidou. Mas fotos tiradas mostravam ele enforcado numa grade, mas apoiado no chão, numa posição quase impossível para enforcamento. Três anos depois, em 1978, um juiz federal responsabilizou a União pela morte do jornalista, "por lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército - SP (Doi-Codi)". Os culpados nunca foram processados.
Neste sábado (25) essa história macabra será lembrada em todo o país, inclusive em Porto Alegre. Na sede da Associação Riograndense de Imprensa (na Avenida Borges de Medeiros, 915, 8º andar), a partir das 10 horas, ocorrerá o debate 50 Anos por Vlado, em evento aberto. Escolhidos a dedo, os dois debatedores são ex-presos políticos: os jornalistas Elmar Bones da Costa e Rafael Guimaraens, ambos na ativa. A mediação será da jornalista Marcia Turcato.
Bones (mais conhecido como Bicudo) e Guimaraens foram presos em fevereiro de 1981 por integrantes do Exército e processados com base na Lei de Segurança Nacional (LSN). Eles atuavam na Cooperativa dos Jornalistas (Coojornal), que fazia circular um jornal conhecido por investigações que contrariavam a ditadura militar em vigor no Brasil. A prisão ocorreu após publicarem relatórios com detalhadas informações sobre a guerrilha ocorrida no Vale do Ribeira (SP), 15 anos antes. Eles e dois outros jornalistas (Osmar Trindade e Rosvita Saueressig, ambos já falecidos) foram condenados a cinco meses de prisão e presos por publicação indevida de documentos secretos.

Após algumas noites no Presídio Central de Porto Alegre, os três homens foram transferidos para a Penitenciária Feminina Madre Pelletier, única que tinha cela especial e onde já estava Rosvita. A prisão deles virou notícia internacional, até porque contrariava o discurso da ditadura militar de que o Brasil estava em abertura política. Depois de uma campanha para sua libertação e atos de protesto, os quatro jornalistas foram libertados. Sem sofrer as torturas físicas infligidas a Vladimir Herzog, mas com as marcas psicológicas de uma temporada na prisão.





