
A Zona Norte do Rio de Janeiro virou campo de batalha nesta terça-feira (28) e isso não é exagero de retórica. Policiais e bandidos usaram armas de guerra num confronto que já contabiliza 64 mortes e pode superar esse número, na medida em que existem muitos feridos. Os criminosos utilizaram inclusive drones com explosivos para bombardear viaturas policiais. Como acontece na guerra da Ucrânia.
Os locais de confronto são o Complexo do Alemão (13 favelas) e a Penha, na Zona Norte. Funcionam como QG histórico do Comando Vermelho (CV), a maior facção criminosa do Rio e a segunda mais importante do Brasil. Basta lembrar as cenas cinematográficas registradas nessas mesmas comunidades em 2010, quando bandidos armados fugiram pelos morros, tentando escapar de rajadas de metralhadora disparadas desde helicópteros das polícias Civil e Militar.
Naquela ocasião os criminosos optaram por fugir, após uma semana de confrontos, que deixaram ao todo 39 mortos (a maioria criminosos, pelo menos dois policiais). Foi o maior combate urbano já registrado no país até então. Acompanhamos aquela ação policial e militar, que durou oito dias, junto com os colegas Rodrigo Müzell e Cid Martins.
Pois a ação policial de hoje superou todos os parâmetros da história carioca. Os 60 mortos representam o segundo maior número de corpos já contabilizados numa ação policial no Brasil (veja contabilidade abaixo). Só perdem para o famoso Massacre do Carandiru, em São Paulo, quando 111 presidiários foram executados por PMs.
Entre os mortos da ação desta terça-feira estão quatro policiais. Quatro pessoas ficaram feridas por balas perdidas, inclusive um morador de rua e a frequentadora de uma academia de ginástica. Fuzil, a arma-padrão nesses confrontos, não é brincadeira: o projétil pode percorrer mais de cinco quilômetros em linha reta e perfurar paredes de tijolos.
Poderia ser de forma diferente? Me parece que sim. Em 2010, após uma revolta do CV pela prisão de duas lideranças, os bandidos tocaram fogo em ônibus pela cidade, mataram policiais aleatoriamente e foram então cercados. O Exército, a Marinha e a Aeronáutica foram utilizados para fechar entradas das principais comunidades do Complexo do Alemão e da Penha. Blindados arrancaram barricadas feitas de trilhos de aço e veículos destroçados. Moradores foram revistados ao entrar e sair.
O resultado é que os bandidos ao final optaram por fugir, em 2010. Escaparam por canos de esgoto, como ratos, além de canais de riachos, durante a noite. Deixaram para trás um arsenal que incluía bazucas e lança-foguetes. É mole?
O saldo de 39 mortos em oito dias, naquela ocasião, é muito menor que o morticínio registrado agora em poucas horas. Talvez tenha faltado planejamento mais minucioso e informações para a ação desta terça-feira. Pode também ter ocorrido uma reação emocional dos policiais ante a perda de quatro colegas. É preciso lembrar também que três das quatro ações policiais mais letais da história do Rio ocorreram durante gestão do atual governador, Cláudio Castro (PL). Será coincidência ou orientação?
O ranking nacional das mortes em operações policiais
1- Presídio do Carandiru, São Paulo, 1992: 111 presidiários mortos pela PM.
2 - Complexo do Alemão e Penha, Rio de Janeiro, 2025: 64 mortos até agora.
3 - Complexo do Alemão e Penha, Rio de Janeiro, 2010: 39 mortos.
4 - Jacarezinho, Rio de Janeiro, 2022: 28 mortos.
5 - Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro, 2022: 24 mortos em confronto com a Polícia Civil
6 - Vigário Geral, Rio de Janeiro, 1992: 21 mortos.
7 - Eldorado dos Carajás, Pará, 1996: 21 sem-terra mortos pela PM.
8 - Nova Brasília, Rio de Janeiro, 1994: 13 mortos em confronto com a Polícia Civil


